A falta de debate público em Portugal

Quando Portugal celebrar o seu 900.º aniversário, daqui a 24 anos, que país seremos? E que país gostaríamos de ser?

Temos cerca de 120 comentadores e colunistas nos media portugueses e as TV's contam com um número avassalador de programas de análise política. Temos comentadores com mais tempo de antena que o Presidente da República ou o primeiro-ministro. Diariamente também são organizadas por todo o país inúmeras conferências sobre o mais variado tipo de assuntos.

Mas o país continua a não se debater.

Portugal é um dos cinco países mais endividados do mundo, com uma dívida de 122% em relação ao PIB e muito vulnerável a choques externos. É como habitar no sopé do vulcão ativo Merapi, e viver arquejantemente à espera de mais uma erupção. Cerca de 70% das famílias enfrentam dificuldades financeiras. Atravessamos uma crise de representação, com uma população nascida após 1974 desengajada do atual sistema político e despossuída de causas e clamores. Temos um sistema bancário vulnerável com um nível de dívida privada dos mais altos da UE. A dimensão multirracial e cosmopolita da nossa população, cada vez maior, continua a não estar devidamente representada nos espaços de poder. As nossas instituições democráticas - do Parlamento aos sindicatos - vivem em tempos pretéritos.

Juntamente com todos os outros países desenvolvidos, seremos atingidos em breve pelo ciclone da 4.ª Revolução Industrial, marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas.

Mas sobre estes temas não há um verdadeiro debate nacional.

As nossas conversas abertas à sociedade mantêm três características. São partidarizadas, discutem-se mais táticas políticas do que políticas públicas. Os espaços de discussão coletiva, que abundam, são quase todos preenchidos por representantes partidários com uma mensagem afeiçoada aos interesses de cada escola. Ter políticos no palco público pode ser benéfico para a democracia desde que não se amputem os espaços de liberdade e de independência de opinião que contribuem para a preservação do próprio sistema democrático. Mas em Portugal perdemos a noção de equilíbrio.

Os espaços de discussão também são imediatistas. Discute-se à noite o acontecimento do dia. Quem for rever os programas de análise política das televisões a cabo, emitidos há alguns meses, percebe que os debates esvaem-se de atualidade em poucos dias. Os argumentos, pelo seu conteúdo e não necessariamente pela sua qualidade, têm uma baixa esperança média de vida.

Além disso, escasseia a opinião de especialistas e, principalmente, de novos especialistas. É naturalmente importante continuar a contar com a contribuição dos decanos da opinião pública, mas nós usufruímos hoje da geração mais qualificada de sempre, aquela que nasceu no pós 25 de Abril. Não é ufanismo vazio, mas temos alguns dos maiores especialistas em muitas áreas do conhecimento. São muitos os portugueses que são mais reconhecidos no estrangeiro pelas suas habilidades profissionais do que no seu próprio país. Precisamos de empoderá-los para que que a discussão sobre o país deixe de convocar a opinião apenas de generalistas e de figuras públicas.

A falta de debate que prime pelo pluralismo tem sido uma característica ao longo da nossa história.

Os portugueses foram marcados, no último século, por pelo menos quatro grandes momentos. Os 41 anos de ditadura, o 25 de Abril com o respetivo processo de descolonização e retorno de 500 mil pessoas, a europeização do país a partir de 1986, e, mais recentemente, a crise da austeridade. Mas, apesar dos sulcos profundos que esses momentos deixaram na sociedade portuguesa, todos eles continuam carentes de um debate público nacional.

Esta semana um estudo da Universidade do Porto sobre a relação dos jovens portugueses com a União Europeia, concluiu que "existe um lapso na transmissão de conhecimento, de aquisição de conhecimento e de noção política de jovens nas escolas." A 8 semanas das eleições europeias são raríssimas as iniciativas públicas da sociedade civil sobre os vários temas da pauta europeia.

E será que já temos capacidade de discutir com independência emocional a forma como fizemos a transição para a democracia? O método português de radicalização, punição e ajuste de contas trouxe vantagens ou desvantagens relativamente a transições negociadas, como no Brasil ou Espanha?

A falta de vocação para o debate e a nossa dificuldade em permitir a discordância reflete-se na magra presença de centros de políticas públicas e de debate (think tanks). Segundo o levantamento mais completo sobre este tema - 2018 Global Go To Think Tank Index Report, da Universidade da Pensilvânia - Portugal tem menos think tanks do que a Macedónia, a Bolívia ou o Zimbabué. Cerca de 10 vezes menos do que a Argentina. Nenhum que chame a atenção da comunidade internacional. É um país em silêncio.

Falta-nos uma sociedade civil engajada e dinâmica. A opinião pública portuguesa não está agrupada e institucionalizada. Não analisamos, não influenciamos, não bloqueamos, não propomos. Os nossos direitos individuais e coletivos são discutidos em instâncias de poder com uma contribuição escassa da sociedade civil e uma atuação excessiva dos partidos políticos. Faltam em Portugal líderes apartidários de direita e de esquerda. Faltam ativistas como Shaun King ou Greta Thunberg. Faltam ONGs devotas à modernização e desenvolvimento da sociedade. Sente-se a falta da opinião técnica, da visão alternativa e independente, da mobilização pública, do compromisso com a sociedade, do questionamento.

A falta de debate estratégico faz com que as nossas esperanças sejam depositadas num grupo de centenas de políticos e esteja sujeita à sua espontaneidade e capacidade de reação. Se a nossa definição de futuro continuar a preencher apenas um ciclo lunar, seremos reféns da falta de eficiência, prejudicaremos a criatividade e a inovação e teremos dificuldade em mobilizar a população para causas comuns.

Contrariamente a Portugal, muitos países passaram por amplos debates públicos. Emmanuel Macron lançou o "Grande Debate Nacional," concluído a semana passada, com 70% dos franceses a apoiar a iniciativa, que visa refletir sobre as maiores preocupações da população. Outros sentiram necessidade de materializar estas discussões em estratégias nacionais de longo prazo. Os Emirados Árabes lançaram o ano passado a "UAE Strategy for the Future." O presidente chinês Xi Jinping apresentou em 2017 a "Grande Estratégia" para o país, com uma visão coletiva até 2050. Poderíamos pensar que apenas países autoritários poderão dar-se ao luxo de estabelecer rotas de longo prazo alheias aos ciclos eleitorais. Mas este é um processo comum em democracias também. A Suécia fá-lo há muito tempo. Em 2002, durante o governo de Göran Persson, foi dos primeiros países a lançar uma "Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável."

O que precisamos fazer para que Portugal comece a debater o seu futuro? Uma nova crise económica? A eleição de populistas radicais?

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e California-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de