A influência positiva do mercado financeiro

Se a relação entre o Estado e a sociedade é estridente e alimenta todo o tipo de ideologias políticas, a relação entre o Estado e o mercado de capitais é silenciosa. E é esta mudez, este vazio de debate, que propicia o ceticismo e a dubiedade. Precisamos de mais clareza sobre a influência do mercado financeiro nas nossas vidas.

O mercado gere cerca de US$ 90 biliões, mais do que o PIB combinado de todos os países do mundo. Este volume de capital está investido numa gama de ativos - ações, obrigações, imobiliário etc. - que afeta diretamente a maioria das nossas decisões diárias. A dívida pública portuguesa (e as suas ramificações na gestão de políticas públicas), a dívida privada, a gestão dos nossos rendimentos individuais, a manutenção dos nossos empregos - todos são influenciados pela ubiquidade do mercado. A sua importância para a história e identidade portuguesas é significativa, desde os Descobrimentos. A expansão e manutenção do império foi construída, pelo menos a partir do século XVI, em cima de empréstimos de capital.

Um mal necessário, acreditam alguns. Mas se Aristóteles, em Política, argumentava que o papel da política é promover a vida virtuosa na cidadania, emerge agora a ideia de que o mercado de capitais poderá também promover a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento social. Complementando, não substituindo o papel do Estado.

Passou despercebido em Portugal, mas a semana passada um conjunto de 29 grandes fundos internacionais de investimento (com um património de US$ 3,8 biliões) enviou uma carta ao governo brasileiro, com um tom forte, a transmitir a sua "profunda preocupação" com o desflorestamento da Amazónia e com a deterioração da preservação do meio ambiente no país. Ameaçaram também desinvestir de vários ativos brasileiros caso o panorama não melhore.

Como o Brasil é o 4º maior recetor de capital estrangeiro do mundo, o Presidente da República, o Presidente da Câmara dos Deputados, o Presidente do Banco Central, tiveram que se posicionar. O jornal Estadão indicou que a carta pode ser um empurrão nas costas para o polémico Ministro do Meio Ambiente sair do governo. O ano passado, a Nordea, gestora de ativos escandinava, já tinha suspendido a compra de obrigações do tesouro do Brasil, pelas mesmas razões.

Ao longo da história, são vários os exemplos de instituições financeiras que apoiaram causas sociais e ambientais. Nas décadas de 1970 e 1980 endowments académicos (como o da Universidade da Califórnia) e fundos de pensão (como o da International Longshore & Warehouse Union) decidiram não investir em ações sul-africanas como protesto contra o apartheid.

São muitas as razões que explicam o interesse dos investidores por temas ambientais, sociais e de governança (conhecidos pelo acrónimo inglês, ESG). A principal delas é que essas áreas têm valor financeiro. A forma como uma empresa utiliza energia, gere os seus funcionários ou aplica práticas de transparência impactam o valor financeiro dessa companhia. Os investidores que incorporam dados ESG nas suas estratégias de investimento, cerca de um terço do total, exercem, por isso, pressão nas empresas dos seus portfolios para que estas aproveitem a economia circular para reduzir custos, cuidem bem dos seus funcionários e fornecedores para que haja aumentos de produtividade e de retenção de talentos, ou lancem produtos ambientalmente responsáveis para atrair novos consumidores.

Semanalmente, novos estudos académicos reforçam a correlação entre estes investimentos sustentáveis, maiores retornos e menor exposição a risco. Cerca de US$ 30 biliões são investidos de acordo com esse paradigma. Nos próximos 5-10 anos, todo o mercado de capitais deverá integrar riscos e oportunidades ESG em estratégias e processos de investimento.

O matrimónio entre dados financeiros e dados ESG exige alguma habilidade técnica. Para treinar os seus alunos, os futuros profissionais do mercado financeiro, as escolas de negócio têm ajustado os seus curricula. Recentemente, o Financial Times noticiou que a procura é muito maior do que a oferta por este tipo de expertise.

De forma silenciosa, o mercado, a sociedade, e o meio ambiente encontraram uma receita comum que todos possam degustar, apesar dos diferentes palatos.

O mercado financeiro português, ao contrário do brasileiro, é muito pequeno, com poucas empresas listadas em bolsa e, por isso, pouco exposto a investidores estrangeiros. Mas isso não significa que estamos insularizados. A União Europeia tem lançado um arsenal de medidas ligadas aos investimentos sustentáveis que, necessariamente, afetarão o mercado nacional.

Como? As empresas serão cada vez mais pressionadas - por parte dos acionistas, dos reguladores e dos consumidores - a terem um corpo de funcionários com diversidade racial e de género, a consumirem energia de forma mais eficiente ou a aperfeiçoarem a segurança no trabalho. Os gestores terão que se reciclar para entender qual o papel da reciclagem na geração de valor para as empresas. Os investidores terão mais ferramentas para pressionar as empresas a se transformarem em direção à sustentabilidade do que governos ou ONGs.

A mudança não virá só pelo voto ou pela rua. Virá também pelo capital. Locke e Robespierre terão companhia.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group e professor de Sustainable Finance na NOVA School of Business and Economics (Nova SBE). A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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