A política deve meter-se no futebol?

O pedido de Francisco Varandas, presidente do Sporting, para que o Estado intervenha na questão das claques levanta uma velha questão: deve a política interferir no futebol? A resposta tem sido sempre "não" e, julgo, voltará a ser "não".

No mundo do futebol das claques morrem jovens (como aconteceu em 2017 a um adepto do Sporting assassinado em confrontos com adeptos do Benfica), espancam-se pessoas e ameaçam-se dirigentes. Esta é apenas uma faceta de um problema muito maior.

As claques são também um negócio de bilhetes, de viagens, de venda de produtos clubísticos. Mas há mais (como qualquer adepto de qualquer clube sabe, pois essa realidade passa à frente dos olhos de toda a gente), o mundo das claques é um mundo de tráfico de droga e de organização da violência.

O crime ou as práticas social e moralmente condenáveis no futebol vão muito para além das claques que, face a essa realidade, acabam por ser um mal menor.

A traficância de jogadores, a fuga ao fisco, o enriquecimento ilícito, os resultados combinados, a falsificação de jogos por causa das apostas e o pagamento de luvas para garantir a organização de grandes campeonatos são quase uma regra em todo o mundo do futebol, muito para além de Portugal, e já levaram à condenação recente por corrupção de um Presidente da FIFA e de um Presidente da UEFA.

Os nossos atuais dois maiores heróis desportivos do futebol, Cristiano Ronaldo e José Mourinho, foram apanhados em Espanha na fuga de milhões ao fisco; as contas dos clubes de futebol portugueses são estranhíssimas, nalguns casos nem as regras básicas de fairplay da UEFA cumpriram; e as transferências e cláusulas de rescisão, inflacionadas, praticadas nos negócios do futebol indiciam pagamentos de comissões e luvas de valores que deveriam ser investigados pela polícia.

Na verdade a questão de a política se meter no futebol é uma falácia: a política já se meteu há muitos anos no futebol, tal como o futebol se meteu muito cedo na política.

No fascismo, quando a oposição democrática acusava Salazar de usar o futebol como ópio para o povo, os êxitos do Benfica e da Seleção eram usados para glorificar o regime e até a possível transferência de Eusébio para Itália motivou uma intervenção política para a tentar impedir.

Na democracia, vários dirigentes desportivos usaram os seus clubes para entrar na política ou para influenciarem os seus negócios e, por outro lado, muitos políticos usaram o futebol para garantirem palco mediático que lhes desse a notoriedade que lhes faltava. Do antigo exemplo de Valentim Loureiro até ao mais recente caso de André Ventura não faltam casos de mistura de carreiras futebolísticas e políticas.

Depois não faltam políticos e juristas nos órgãos dirigentes dos clubes que servem de autênticos idiotas úteis que caucionam a vida duvidosa dos clubes, dando com o seu nome prestígio e respeito institucional ao que deveria ser criticado e, muitas vezes, investigado e levado à justiça.

E até no parlamento há deputados de todos os partidos associados por clubes.

Os intelectuais são também cúmplices da degradação dos mais básicos compromissos de civilidade no fenómeno futebolístico, ao desculparem ou ao relativizarem e tentarem diminuir o impacto do futebol no resto da sociedade, com a desculpa que a selvajaria é admitida por este ser um jogo de paixões, de emoções, de irracionalidade admitida - isto é o mesmo que aquelas leis que ainda no século XX vigoravam a não punir os maridos que matavam as mulheres por ciúmes: era precisamente a paixão e a irracionalidade acionada pela infidelidade conjugal que levava ao perdão de um assassinato.

Porque é normal ver nos estádios, não só jovens das claques, mas políticos, banqueiros, gestores, juristas, jornalistas a gritarem, desvairados, insultos aos árbitros?

E depois há os comentadores e jornalistas que fizeram carreira a trabalhar na análise política e que, fruto do seu prestígio pessoal, aceitam convites para comentarem futebol em defesa do clube do seu coração, contribuindo assim para o reforço de credibilização de um mundo moralmente degradado e que contagia a sociedade, no caso das claques, com hábitos de violência organizada que terão um dia, certamente, repercussão na vida política - são inúmeros os relatórios policiais e do SIS que, desde há anos, associam as claques de futebol à violência organizada por grupos de extrema-direita, racista e xenófoba.

O futebol contribui com 400 a 500 milhões de euros anuais para o PIB português, segundo uma estimativa de 2017. O futebol português é um valor económico que deve ser tratado com cuidado e, se possível, melhorado.

Mas a economia não é tudo no mundo e a infeção de violência e da corrupção com que o futebol contamina o resto da sociedade tem um custo muito mais elevado do que a contribuição económica que ele dá ao país - o futebol, se a política séria e a justiça com meios não atuarem, vai dar cabo, por contágio dos seus péssimos atos, de toda a sociedade.

O Estado não pode ser indiferente ao jogo, deve respeitar a liberdade dos clubes mas tem de impedir que a liberdade de todo o país seja afetada pela violência e pela corrupção do futebol.

O futebol não pode continuar a ser juiz em casa própria.

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