Admirável Mundo Novo I

A tecnologia encolhe o mundo. Quando em meados da década de 90 começamos a usar o IRC para digitar mensagens para estranhos de outros países, quando no final da década de 90 o telemóvel tornou-nos permanentemente acessíveis ou quando em meados de 2000 começamos a fazer chamadas telefónicas com vídeo pelo Skype, o mundo contraiu-se. Redefine-se o significado de distância como se os novos cartógrafos fossem os nossos filhos cibernéticos e houvesse um novo heliocentrismo centrado na internet.

Com o Covid-19 o mundo encolheu-se mais um pouco, ao ponto de caber todo na nossa casa. Cada divisão dos nossos apartamentos ganhou uma conotação planetária, como se os novos Descobrimentos fossem feitos de pijama e pantufas.

O que significa esta domesticação e localização de todas as nossas atividades? Como veremos nos próximos artigos, trabalharemos cada vez mais a partir de casa enquanto robôs farão o trabalho repetitivo e mecanizado nas fábricas e nos call centers. As relações de poder serão mais descentralizadas e haverá uma municipalização da governação, como antecipei no livro "Cities and States as Global Players" (Oxford University Press). Só sobreviverão as empresas multinacionais que conseguirem oferecer produtos e serviços altamente customizados aos interesses de comunidades locais. A ideia de embaixada, que se mantém relativamente estática desde o Renascimento, passará para o mundo online. Transportes urbanos terão muito mais relevância do que aeroportos. Finalmente perderemos a noção de privacidade, uma característica comportamental recente na história da civilização humana. As nossas casas contarão com novas infraestruturas para permitir o convívio permanente entre os seus ocupantes, obrigando arquitetos e engenheiros civis a descobrirem a IoT e a produção de energia solar por OPV. As famílias serão mais extensas e não serão compostas apenas por critérios sanguíneos. Passaremos os últimos dias da nossa vida em comunidades de apoio. Talvez deixemos de morrer em solidão.

É um novo sedentarismo. Se, há cerca de 10 mil anos, o que possibilitou seres humanos de deixaram de ser nómadas foi a invenção de técnicas agrícolas e pecuárias, o novo sedentarismo pós Covid-19 será também ensejado por novos avanços tecnológicos.

Este mês, milhões de empregados em setores não industriais foram obrigados, do dia para a noite, a trabalharem a partir de casa. Passado o choque, muitos perceberam que, se fosse possível alhearem-se das outras atividades familiares, a sua produtividade cresceria. O trabalho remoto traz vantagens. A tecnologia ainda é relativamente precária. Mas instrumentos como o Zoom, Skype e centenas de outros provedores serão gradualmente substituídos por tecnologias sensoriais, imersivas e interativas. Será possível melhorar o ambiente de um escritório a partir de casa, com soluções de holoportation, Realidade Virtual 4D ou Realidade Aumentada. Porquê gastar 2 dias em viagens para ter uma reunião em NYC se eu

posso teletransportar-me para a sala de reunião? Empresas como a Blippar, Zugara ou Augmate tornar-se-ão cada vez mais conhecidas.

Na verdade, andamos distraídos perante a torrente de produtos tecnológicos já disponíveis, até gratuitamente no mercado. Habitantes de países ricos usam apenas uma parca fração das soluções inovadores já disponíveis em saúde, educação, trabalho ou lazer. Quando eu era criança ouvia o programa semanal do meu irmão numa estação de rádio pirata de Castelo Branco numa aparelhagem a pilhas. Hoje existe a Radio Green , uma plataforma que toca milhares de estações de rádio de todos os cantos do mundo apenas usando o dedo para girar o planeta. Comecei este artigo a ouvir rádios de Marrocos e agora passei para rádios argentinas.

Este novo mundo estará centrado em internet 5G, que permite velocidades de download de 20 GB e 10 GB de upload, ou seja, internet 100 vezes mais rápida. As fronteiras entre o mundo real e online irão dissolver-se. Em Portugal, os primeiros testes de 5G ocorreram em outubro de 2017 e a atribuição das frequências deve acontecer no segundo semestre deste ano.

Os seres humanos irão entregar-se à sedentarização porque é mais cómodo e mais barato, além se sentirem-se emocionalmente mais protegidos e mais produtivos. Consumirão também menos alimentos e, por isso, contribuirão mais para a sustentabilidade ambiental. Além disso, o mundo Covid-19 é um mundo pré-Covid-20. Surtos epidemiológicos serão recorrentes.

Mas há riscos. A principal são as novas rachaduras sociais. Aprofundar-se-ão as divisões entre excluídos e integrados tecnologicamente. Num mundo com quase 5 bilhões de pessoas ainda sem acesso à internet e com mais de 2 bilhões sem saneamento básico, abrir-se-ão novas fendas entre ricos e pobres, definidos cada vez mais pelo acesso a tecnologia. A exclusão tecnológica afetará também os idosos. Quem só usar o telemóvel para fazer chamadas sentir-se-á desalojado. Serão os fabricantes de velas antes de Edison e Tesla. Serão os nómadas de há 10 mil anos.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group e professor na Nova SBE. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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