Quando o Presidente argentino, Javier Milei, apresentava estatísticas maquilhadas para provar o sucesso das suas propaladas reformas, Mariana Leitão apressou-se a elogiar: "As políticas económicas que estamos a ver na Argentina estão a funcionar", disse.
Segundo a líder da Iniciativa Liberal, as medidas aplicadas naquele país eram as que o seu próprio partido defendia desde a fundação. Se no caso dos liberais portugueses ainda é preciso ver para crer, a experiência argentina era a prova viva de que elas de facto resultam.
Milei continua ilusionista na exibição dos seus feitos enquanto endivida mais o país e desmantela o que resta do Estado social. Já os argentinos têm de lidar com a crua realidade e não com açucaradas perceções. Um exemplo é o aumento de pessoas em situação de sem abrigo. Em Buenos Aires, reportou o diário El País, há gerações inteiras que só conheceram a vida na rua.
Enquanto isso, o projeto de reforma laboral de Milei estenderá a passadeira a uma espécie de escravidão embrulhada em dinamismo económico: a jornada de trabalho poderá durar 12 horas, as férias serão reduzidas ou até eliminadas e a ideia passa também por fragilizar a contratação coletiva, facilitar e tornar mais baratos os despedimentos e reduzir o salário em caso de doença ou de acidente. Ou seja: o trabalho já não será um direito, mas, sim, um prémio de bom comportamento ou de consolação, concedido por quem pode e manda. Valha-nos, pelo menos, que o chicote caiu em desuso...
Milei, convém não esquecer, aconselha-se nos assuntos governativos com o seu falecido cão, a partir do além, e diz que Deus lhe apareceu em 2020 a encomendar a missão de salvar o país. Talvez a narrativa lhe soe familiar, pois imitadores não lhe faltam.
O Presidente argentino apresentou-se como arauto da liberdade, embora vozes mais independentes e respeitadas assegurem que ele está, isso sim, a preparar os alicerces de um novo regime autoritário. Umberto Eco há muito nos advertiu de que o ressurgimento do fascismo apareceria com vestes ditas libertadoras. Não por acaso, Milei é incensado pelos senhores das grandes empresas tecnológicas que consideram a democracia uma maçada que dá muita despesa e propõem, em alternativa, um mundo governado por CEO's.
Talvez para lá caminhemos, quem sabe? Mas antes disso, o que eu gostava mesmo era que Mariana Leitão dissesse ao que vem. E se a Iniciativa Liberal ainda assina por baixo as políticas de Milei ou tem uma agenda secreta onde a palavra liberal é apenas algo vagamente decente e distante que já teve o seu funeral, mas fica bem no retrato de família.
