O mundo acordou, em pleno janeiro de 2026, mergulhado no lodo do cais geopolítico, mas com um toque de surrealismo que rivaliza com as obras de Salvador Dalí. Tudo porque Donald Trump parece encarar o planeta como quem percorre o catálogo de uma imobiliária. Depois da incursão militar na Venezuela para libertar o país e, já agora, as suas vastas reservas de crude e o próprio Nicolás Maduro, o foco do Presidente dos Estados Unidos vira-se para Norte.
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A Gronelândia está, mais uma vez, sob o radar da arte da guerra sem lei. Se em tempos não muito distantes a ideia de comprar a maior ilha do mundo parecia uma anedota, hoje, a ameaça de uma opção militar para garantir este território estratégico faz-nos questionar se o Direito Internacional foi incinerado numa lareira de Mar-a-Lago.
A lógica é arrepiante e tem a Chevron escondida com o povo de fora: primeiro, entra-se em Caracas para capturar um autocrata. Resolvido o assunto, a lógica imperialista foca-se no Ártico. Afinal, para quê negociar tratados de pesca ou direitos de exploração mineira com Copenhaga quando se pode simplesmente tentar passar um cheque - ou, à falta de acordo, enviar as tropas?
A questão que se impõe, ainda sem resposta, é: Onde vamos parar? Vivemos num mundo onde a soberania das nações se tornou um conceito tão volátil como uma criptomoeda num dia mau; onde as fronteiras são meras sugestões e o Direito Internacional - aquele conjunto de regras que supostamente nos separa da barbárie -parece ter sido substituído pelo capricho de quem tem mais porta-aviões.
Se a Gronelândia é o próximo alvo, o que impede que os Açores sejam adquiridos no próximo trimestre por serem geograficamente convenientes? A ironia disto tudo é que, enquanto discutimos a autonomia da Gronelândia e o destino de Maduro, o conceito de ordem mundial está a derreter mais depressa do que os glaciares dinamarqueses. Pelos vistos, no admirável mundo novo de 2026, a diplomacia não se faz com palavras, mas com propostas de aquisição hostil. E a Europa, essa, assiste na bancada, vociferando, mas de mansinho, enquanto não é conhecido o próximo imóvel listado no portefólio da Casa Branca.
