Há uma força inegável na imagem de Emmanuel Macron a discursar junto a um dos submarinos nucleares franceses. Planeada há muito, a intervenção ocorreu ao terceiro dia de operação israelo-americana no Irão, um contexto que serve ao milímetro os argumentos políticos para reforçar investimentos em Defesa. Numa mudança significativa da sua estratégia nuclear, o presidente de França prometeu aumentar o arsenal e explicou o conceito de "dissuasão avançada", que inclui o aprofundamento da cooperação com outros sete países.
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Não é comum vermos um líder europeu a invocar o seu poderio militar. Há da parte de Macron uma tentativa evidente de recuperação da força interna, mas há também um reposicionamento geopolítico num mundo que tem vindo a mudar a um ritmo vertiginoso. A alteração nas prioridades dos Estados Unidos e o poder crescente e silencioso da China contam-se entre as principais justificações para o chefe de Estado francês invocar a urgência da autonomia militar da Europa. A mensagem implícita é clara: já não podemos confiar no guarda-chuva dos Estados Unidos.
Neste jogo de sombras, o Governo português tenta usar a ambiguidade, mas na verdade já todos percebemos que a Base das Lajes está a ser utilizada com objetivos que vão além dos previstos nos acordos bilaterais. E o direito internacional vai sendo atropelado, se é que não está já morto, como sublinham juristas alarmados com a falta de balizas e a diluição de conceitos sobre agressão ou legítima defesa.
Não é nova a invocação de direitos humanos ou de valores alegadamente democráticos para justificar o uso da força. Mas é mais superlativa do que nunca a imprevisibilidade de líderes como Donald Trump e a falência da diplomacia. "Para ser livre é preciso ser temido", assinalou Macron, num dos chavões mais titulados pela imprensa mundial. No fim de contas, tudo se resume à lei da força. Séculos de construção de uma ideia de progresso aliada a valores humanistas acabam reconduzidos ao que temos de mais primitivo.
