Quando esta guerra recomeçou na Ucrânia, disse em casa que não me apetecia de todo voltar a ver uma coisa destas na Europa.
Voltaram as memórias dos longos dias de reportagem na Bósnia e na Croácia, a destruição, o rosto daquelas pessoas num inverno gélido, onde o mundo pacífico daquela gente desmoronou com uma violência indescritível. A Europa e a América demoraram, na altura, a reagir, tal como agora, e quem vive ali sofre coisas que nós, portugueses, país de paz, dificilmente conseguimos imaginar, mesmo com as imagens que chegam a sua casa todos os dias.
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A guerra é feia. O ódio que ali nasce e a frieza como se mata e morre são coisas que não se explicam.
Mas a guerra voltou à Europa. E lá voltei.
O que vemos no rosto daquelas mulheres que se cruzaram connosco na fronteira, com os filhos arrastados pela mão, numa fuga desesperada para a Polónia provoca uma sensação brutal de impotência deste nosso mundo, como não conseguimos travar a tempo o recurso às armas, que nada resolve. Já sabíamos disso e hoje é ainda mais claro.
Passaram quatro anos, milhares de mortos, muitas vidas destruídas, além de um país devastado. E não há solução à vista.
Putin terá o seu pedaço de terra desenhado com o sangue dos filhos do país que quer afirmar grande, mesmo num tempo onde facilmente conseguimos falar uns com os outros e as fronteiras serão coisa para diluir.
Zelensky terá uma Ucrânia amputada, mesmo à conta de uma geração inteira e da tenacidade de um povo que faz tudo para sobreviver e segurar uma linha da frente empurrada por um dos mais poderosos exércitos do mundo.
Não haverá vencedores. O povo da Ucrânia merece o nosso apoio e aplauso pelo que conseguiu fazer, mas no lado russo também haverá muitas feridas para sarar nas famílias que perderam os filhos, os maridos e os pais na guerra de um líder que se considera muito mais do que o simples homem mortal que é.
Este nosso mundo está mais imprevisível, com o regresso dos falcões, dos grandes exércitos que se julgam invencíveis e das ameaças políticas que rapidamente se misturam com alegadas soluções militares.
A corrida ao armamento, o regresso ao nuclear e o redesenhar de áreas de influência das velhas e novas potências lançam uma incerteza inquietante sobre o futuro, diria mesmo, sobre o presente.
Volto à Ucrânia e à linha de fronteira que aquelas mulheres cruzavam há quatro anos. Vinham sem lágrimas, olhar vazio, determinado, insensíveis ao choro dos filhos e ao adeus num abraço dos maridos que ficavam na guerra. Seguiam de passo firme por entre balcões e tendas com ajuda alimentar, roupas, médicos e voluntários que os acolhiam.
O passo poucas vezes se atrasava além do tempo de comer uma sopa e pegar em mais um agasalho. Seguiram em frente, sem saber para onde iam, apanhando um dos muitos autocarros que levaram refugiados para todo o lado. Algumas dessas mulheres vieram para Portugal. Vivem aqui, ao nosso lado, ainda à espera que tudo se resolva e a vida na Ucrânia possa voltar a ter paz e esperança de que isto nunca mais se repita mesmo.
Se me perguntam se eu acredito nisso, direi que não. Qualquer acordo será apenas mais um capítulo num difícil equilíbrio desenhado, agora, à dimensão de egos e ambições de personagens demasiado perigosas que governam atualmente as grandes nações.
Viveremos tempos incertos, certamente, mas a esperança continua a ser o alimento dos nossos sonhos.
