A tempestade Kristin e o imperativo da resiliência: porque não podemos esperar pela próxima catástrofe
A depressão Kristin deixou um rasto profundo na vida portuguesa. Perdas de vidas humanas, mais de dez mil ocorrências registadas, centenas de milhares de pessoas sem eletricidade e infra-estruturas críticas cortadas, com perdas patrimoniais superiores a 2 mil milhões de euros. No entanto, enquanto o país enfrentava os impactos imediatos, duas visões opostas começaram a emergir na campanha presidencial: uma de António José Seguro, defendendo que após o caos era necessário ter "uma conversa séria" sobre como Portugal responde a estas catástrofes, com apelos sucessivos de ajuda; outra de André Ventura, carregando rapidamente nas críticas e responsabilidades, sublinhando o que deveria ter sido feito em prevenção, esquecendo as posições antecedentes de negacionismo climático. Enquanto isso, assistíamos a uma proposta irracional da Iniciativa Liberal para retirar força e emergência à Lei de Bases do Clima.
Mas, o problema não é apenas político. É estrutural. E tem um nome que poucos ouvem em Portugal: cultura de risco para resiliência climática.
O mundo já estabeleceu há mais de uma década como devemos lidar com estas situações. Em 2015, no mesmo ano em que as Nações Unidas aprovavam a Agenda 2030, foi adotado o Quadro de Sendai para a Redução do Risco de Catástrofes. Este documento, nascido da experiência japonesa e do conhecimento acumulado de décadas, define com precisão como as sociedades se devem organizar. Uma carta de navegação que Portugal subscreveu, mas pela qual nunca verdadeiramente se navegou.
O Quadro de Sendai estabelece um princípio fundamental: a governação multinível. Significa isto que organismos internacionais, governos, autarquias, instituições e cidadãos são todos parte ativa e responsável em três momentos críticos: na prevenção, na resposta imediata, e na recuperação. Ninguém fica à margem. Ninguém se pode demitir. E o Quadro introduz um conceito oriental que mudou a forma como o mundo pensa em reconstrução pós-catástrofe: "Build Back Better" - reconstruir melhor. Não é simplesmente reconstruir o que tínhamos. É reconstruir com maior resiliência, com infraestruturas mais robustas, com sistemas redundantes que garantam que quando uma coisa falha, há outras que suportam a continuidade.
É incompreensível que após cada tempestade, seca, incêndio ou apagão, Portugal volte "à estaca zero". Perdemos muito tempo a apontar dedos após a catástrofe. O dedo deveria estar apontado antes, quando temos tempo de preparação, quando o Estado não está em calamidade, quanto devemos investir em resiliência e adaptação.
Aqui está a verdade inconveniente: Portugal é extraordinariamente exposto às alterações climáticas. Em 2025, tivemos o verão mais quente desde que se começou a medir em 1931. Ondas de calor que duraram dezasseis dias. Extremos de temperatura que bateram recordes. Condições climáticas de incêndios que agora são quarenta vezes mais prováveis do que no período pré-industrial. Não se trata de uma inevitabilidade cósmica. Trata-se de uma realidade induzida pelo aquecimento global, que podemos mitigar globalmente e que localmente devemos reduzir os impactos através da adaptação.
A maior parte da população portuguesa (99%) já reconhece que a adaptação às alterações climáticas é necessária. Até compreende que cada euro investido agora em prevenção e resiliência poupa entre cinco e sete euros em reparação futura. O problema não é de perceção. É de vontade política e de execução.
Portugal tem um Roteiro Nacional para a Adaptação, uma Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas para 2030, um Plano de Resiliência das Infraestruturas às Alterações Climáticas das Infraestruturas de Portugal, IP e até tem disponível no site Portugal 2030 as "Orientações técnicas sobre a resistência às alterações climáticas das infraestruturas no período 2021-2027" (Comunicado da Comissão Europeia, 2021). Temos, ainda, uma Lei de Bases do Clima aprovada por um consenso raro - mas com atrasos constantes na sua implementação. Tem financiamento: em 2024, o Banco Europeu de Investimento desembolsou 1100 milhões de euros em energia sustentável e recursos naturais e o PRR - Plano de Recuperação e Resiliência coloca 22,2 mil milhões de euros à disposição até 2026, dos quais 38% para objetivos climáticos. Por isso, a resposta financeira existe. O que nos falta é a urgência, a sistematização, a cultura de que isto não é um luxo, é uma condição para a sobrevivência económica e social.
O Quadro de Sendai é claro num outro ponto, em que Portugal fica longe: a importância dos sistemas de redundância, como equipamentos de substituição, antenas móveis, recursos pré-posicionados. O apagão de 2025 expôs estas fragilidades: o SIRESP - o sistema de comunicações de emergência - falhou justamente porque não tinha verdadeiras redundâncias. Foram precisos anos e estudos para começar a falar de substituir um sistema que demonstrou ser inadequado em cenários de elevada complexidade operacional e continua a falhar, em que já faz lembrar o tempo do novo aeroporto. Portugal tem que ser célere na sua execução. Não apenas rápido, mas particularmente ousado em reorientar fundos para adaptação - proteger o território, as pessoas mais vulneráveis e as infraestruturas essenciais.
O que Portugal precisa é de uma mudança de paradigma profundo. Não basta ter alertas quando já há risco elevado. É imperativo ter comunicação constante nos períodos de preparação que antecedem os períodos críticos. É preciso aumentar significativamente a capacidade dos sistemas de proteção civil e das infraestruturas para lidar com múltiplas crises simultâneas. É necessário investir em tecnologia de monitorização - sensores, sistemas de alerta antecipado, redes inteligentes que preveem a sobrecarga antes de falhar e é sobretudo necessária uma plena articulação entre entidades na prevenção.
Não é por acaso que a tempestade Kristin expôs não apenas as fragilidades físicas do país, mas também as divergências ideológicas profundas entre os dois candidatos que disputam a segunda volta às Presidenciais. António José Seguro esteve no terreno a inteirar-se dos problemas e a apontar soluções, usando a sua voz e o seu espaço em antena para amplificar os pedidos de apoio. Já na primeira volta, tinha reunido com especialistas em alterações climáticas e sustentabilidade, munindo-se de conhecimento técnico para "combater negacionistas". Reconhece que existe demagogia nesta matéria, mas posiciona-se claramente num quadrante que defende maior ambição na ação climática, alinhado com os compromissos internacionais assumidos por Portugal no Acordo de Paris e na Lei de Bases do Clima. André Ventura, pelo contrário, representa um espaço político onde o ambiente é tratado como um empecilho ideológico. O próprio partido Chega publicou em 2022 um artigo intitulado "Ambiente, a Retórica Melancólica da Esquerda", revelando o tom com que encara a urgência climática. Ventura admitiu que as alterações climáticas são um problema, mas rapidamente ressalvou: "não há milagres". Esta postura de resignação ou até de desvalorização contrasta radicalmente com a necessidade de respostas assertivas, baseadas em ciência e em investimento estrutural.
Por isso, a diferença entre Seguro e Ventura na segunda volta não deveria ser reduzida apenas a como interpretam os impactos de Kristin e os seus apoios, ou quem tem mais culpa. Será sobre quem tem uma visão real para transformar Portugal num país que se prepara para as catástrofes, que as antecipa, que investe na resiliência de forma sistemática e permanente.
Nós não estamos condenados a sofrer infortúnios cada vez mais frequentes e intensos. É verdade que não podemos evitar as alterações climáticas e seu o nível de severidade. Mas podemos preparar-nos melhor, reduzindo a sua exposição e vulnerabilidade, mitigando assim os impactos de forma exponencial. Isso exige uma mudança de consciência, um investimento político real em prevenção, e uma disposição em aceitar que a cultura de risco não é um detalhe numa agenda maior. É o alicerce sobre o qual construímos a segurança e a sobrevivência de uma nação exposta ao risco climático.
Portugal pode ser uma referência global ou pode simplesmente continuar a improvisar após cada tempestade. A escolha é clara, e a próxima Kristin está à espera.
