Duas plataformas de verificação concluíram que a comunicação do Chega adicionou chuva intensa em vídeos partilhados nas redes sociais, com André Ventura no centro de uma ação de distribuição de bens às vítimas do mau tempo. Talvez alguém do partido tenha entendido que, tratando-se do líder, deviam mais meter mais água.
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Se a ideia era fazer de André Ventura um mártir encharcado em solidariedade, não resultou. O mesmo aconteceu no ano passado, quando o político agarrou num ramo e resolveu desprestigiar os bombeiros deixando-se filmar a apagar uma pequena fogueira no auge dos incêndios de verão.
O simples aproveitamento político da tragédia dos outros repugna qualquer português. Até os de bem. Sendo André Ventura um cristão convicto, chega a ser chocante, porque a conduta exibida é um atentado aos valores mais básicos da Igreja Católica.
No argumento do marketing manipulador, a caridade não basta ser feita, tem de ser editada para parecer épica. Mas as análises não deixam margem para dúvidas: enquanto o líder carregava paletes de leite em Espinho, sob uma chuva que a realidade teimava em manter modesta, alguém decidiu que o chefe merecia um dilúvio bíblico, transformando um chuvisco banal numa tempestade cinematográfica, num exercício de inteligência artificial que expôs a falta de inteligência política.
Para quem apregoa o regresso aos valores cristãos, Ventura parece esquecer que a humildade não se compadece com o uso de tragédias como cenário de estúdio e que a Igreja já alertou para os riscos da "instrumentalização da fé para fins políticos".
Espero que o homem comum que Ventura diz representar seja consumidor de informação verificada e não precise de efeitos especiais para saber quando está a ser enganado. O contrário envolve grande risco porque, um dia destes, a equipa de imagem pode mesmo colocar o líder a caminhar sobre as águas. Mais a sério, fica a pergunta: que moral resta a quem prega ideais ultraconservadores importados enquanto despeja chuva falsa sobre a dor real dos portugueses?
