Chamaram-lhe "Tozero", choninhas e cinzentão. A esquerda dita revolucionária viu nele o cúmplice de Passos durante a troika. A direita startup, tasqueira ou de casta olhava-o com desdém.
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A 15 de junho do ano passado, Seguro disse ao que vinha, a partir das Caldas da Rainha, onde vive. Pode criticar-se muita coisa nele, mas quem o compara a um certo socialismo de bordel que anda pelos tribunais, talvez mereça internamento compulsivo. A verdade é que poucos o levaram a sério, mesmo no PS, durante algum tempo.
De uma penada, o vencedor da primeira volta das presidenciais atirou para o caixote do lixo da História o que restava do mofo cavaquista, afundou a megalomania castrense, acantonou o ultraliberalismo a la Milei e deixou a restante esquerda entregue ao voto...inútil. Só falta mesmo tirar oxigénio ao extremismo.
O Ventura que enfrentará Seguro vale menos do que o Chega das legislativas de 2025, é só fazer as contas. Mas, claro, terá tendência para engordar nas semanas que se seguem porque este Trump de loja dos 300 já se vê como o hipermercado das direitas, uma oferta da fábrica de inteligência artificial de Luís Montenegro.
Parece haver cada vez mais eleitores a rejeitar a tutela dos diretórios partidários. Seguro provou ao PS que tinha razão antes do tempo e os resultados futuros da IL serão sempre comparados aos deste Cotrim insuflado. Bloco, PCP e Livre ficaram reduzidos à sua versão Ena Pá 2000, mas a crise da esquerda não é para rir. Grande parte do eleitorado habitual destes partidos dispensou orientações das chefias. Vê-los endossar o voto em Seguro na hora da derrota foi patético (amigos, não digam a ninguém, mas nem os fiéis vos ouviram à primeira).
Ventura não conta, pois, como se sabe, lidera um culto. Enquanto o seu eleitorado estiver zangado com o mundo e tiver o diabo no corpo, será fácil arrebanhá-lo, mas eu, se fosse ao querido líder, desconfiava. Mesmo nesse universo, há muito quem pense pela própria cabeça.
Cotrim, Gouveia e Melo e Montenegro não se comprometeram com as opções da segunda volta, mas isso vale menos do que parece. Haverá muitos sociais-democratas, conservadores e liberais à antiga a votar Seguro ou, se quiserem, a rejeitar Ventura. O desfile de declarações de apoio já começou e irá aumentar. Aqui chegados, muitos sabem onde, como e com quem se defende a matriz fundadora do regime e se faz a blindagem da convivência democrática. O combate de ideias pode esperar. Como disse Henrique Raposo, na SIC, para um liberal de direita em 2026 a maior ameaça à liberdade e à democracia é a extrema-direita. Quem, nessa área política, não perceber, azar: levará à mesma com o das Caldas a caminho de Belém, pois o manguito à Bordallo Pinheiro é seguro. Agora, se quiserem, já podem chamar-lhe Tozé Povinho.
