
Handwritten notes are seen on the hand of presidential candidate Jair Bolsonaro of the Party for Socialism and Liberation (PSL) during a television debate at the Rede TV studio in Osasco, Brazil August 17, 2018. REUTERS/Paulo Whitaker
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O retrato da ascensão de Bolsonaro ao primeiro lugar das sondagens.
Amigos portugueses me perguntam, algo alarmados, sobre o que está a acontecer no processo eleitoral brasileiro. O motivo: a liderança em todas as sondagens, para a primeira volta das eleições presidenciais, do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro, deputado pelo inexpressivo PSL.
O estranhamento é justificado. Trinta e três anos após o fim do regime militar, uma parcela considerável da população parece disposta a eleger um apologista daquela ditadura, negacionista da tortura por ela empreendida e adepto de posições politicamente incorretas -é réu, por exemplo, por ter dito que uma deputada não "merecia ser estuprada" por ele.
Por mais repulsiva que essa descrição seja, Bolsonaro é um improvável desaguadouro de um processo de insatisfação com o sistema político instalado com a Constituição de 1988, que gerou maus serviços públicos, corrupção sistémica e compadrio.
Os anos do PT de Luiz Inácio Lula da Silva no poder (2003-2016), a despeito de momentos de bonança económica, acentuaram essas características ao paroxismo. E o PT introduziu a "Kulturkampf" como elemento de criação de tensão com fins eleitorais, acentuando divisões.
Visto como exotismo há um ano, Bolsonaro acabou por se favorecer desse caldo cultural. Para adicionar imprevisibilidade, ele sofreu um atentado à faca que o tirou da campanha de rua e lhe deu uma exposição como vítima antes inaudita.
Até 2014, os polos do sistema eram o PT e o PSDB, partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1994-2002). Só que o PSDB acabou tragado por denúncias de corrupção que, se são menores em escopo do que as associadas ao PT no âmbito da Operação Lava Jato, foram suficientes para colar ao partido o rótulo de "igual aos outros".
Bolsonaro ocupou esse espaço centrista, com a radicalização de um eleitorado insatisfeito e com a paralisia económica do país.
Paradoxalmente, o PT, virtualmente morto há dois anos, renasceu para esta campanha. O impedimento da impopular presidente Dilma Rousseff em 2016 salvou o partido. Com o fracasso do governo interino seguinte, de Michel Temer (MDB), a sigla ganhou uma narrativa de vitimização.
Ela foi coroada com a condenação, prisão e inabilitação de Lula para concorrer à Presidência. Isso tudo viabilizou que substituto de Lula na disputa deste ano, Fernando Haddad, surgisse como segundo colocado nas sondagens.
Para o mercado financeiro e para boa parte dos brasileiros, é um cenário de travessia do estreito de Messina nos tempos homéricos. De um lado, Cila. Do outro, Caríbdis. Não por equivalência moral, mas por potencial disruptivo.
Há quem preveja o apocalipse económico, em especial se o PT voltar ao poder - o programa da sigla para a área é de arrepiar. Outros temem uma escalada autoritária que descambe para golpe de Estado, no caso de Bolsonaro triunfar. O seu histórico e declarações dos generais que trouxe para a sua campanha não ajudam a dissipar tais suspeitas. A inexperiência plena e falta de estrutura parece um risco maior.
Na prática, se um dos dois acabar eleito presidente, salvo surpresas que possam ocorrer, a tendência será de acomodação de lado a lado. De todo o modo, será desagradável a muitos, dado que o país está cindido. Voltando ao início deste texto: Bolsonaro não é causa, mas sim sintoma de um mal-estar maior.