Não sei se já reparou, mas agora também trabalha num supermercado.
E numa loja de roupa.
OUÇA AQUI A OPINIÃO DE MIGUEL CARVALHO
Mesmo quando não somos funcionários desses estabelecimentos, é a si e a mim, clientes, que pedem que façamos tudo. Escolhemos o produto, pesamo-lo, fatiamo-lo, passamos um código de barras na caixa automática e, se tudo correr bem, vamos embora, sem qualquer interação humana. Há cadeias das multinacionais de vestuário em que, na hora de sair, já estamos a sós, nós e a máquina, ora para comprar uma camisa ou devolver um casaco. Por vezes, parece que a eternidade passou por ali, mas dizem-nos que é para o nosso bem.
Na verdade, há muito que fomos empurrados para reclamar em vão com vozes robotizadas, anular um contrato após trinta minutos de música de elevador e atravessar autoestradas e portagens desumanizadas. Disseram-nos que era a via rápida para a modernidade, mas, vá lá saber-se porquê, continuo a sentir que é um atraso de vida.
O chamado self-checkout - expressão que, na prática, quer dizer, desenrasque-se, mas em inglês - é o avanço das caixas automáticas à custa da trituração de trabalhadores e dos seus direitos. No topo, é visto como eficiência, claro, mas o capitalismo, tais como as suas inovações e a sua produção desenfreada de tentações que não sabíamos que precisávamos, atualiza de forma periódica o seu vocabulário. Agora vendem-nos as maravilhas do "auto atendimento". Os sindicatos preferem o termo "rouba-empregos", em que o trabalhador é substituído pelo cliente. Ou seja: a inovação é, afinal, retrocesso. Bem lembrado.
Nestas matérias, também eu, pecador, me confesso.
Sim, já dei comigo, desesperado, a transitar da gigante e impaciente fila humana de supermercado para a suposta eficácia da maquineta que tudo faz e me fala por códigos. Mas, na maioria dos casos, mesmo quando não é conveniente, insisto em penar na fila. É um contributo pífio, uma "quixotice" de supermercado, a julgar que, com a minha casmurrice, garanto mais um posto de trabalho.
Os brasileiros, que desengravatam a língua e os conceitos como ninguém, já explicaram: se a tecnologia transfere trabalho para o cliente, isso não é "experiência", cara: é mesmo prestação de serviços. Ou seja, somos nós os carrascos do nosso semelhante que antes se sentava na caixa para nos atender e agora se tornou descartável.
Quem dispensa essa utopia tecnológica sou eu. E, já agora, o excesso de anonimato patológico destes tempos egoístas, individualizados, sem pingo doce de humanidade, em qualquer continente onde ocorre. É o meu boicote com fisga. Mas se todos reclamássemos o mínimo de interação com o outro mesmo quando somos supérfluos, nenhuma caixa automática cantaria.
