
TSF
A Democracia permite todas as soluções. A questão não é de legitimidade democrática, é política. Já todos sabem que o povo não é parvo. O que cá se faz, cá se paga.
Nas certezas que se ouvem a um lado e a outro fica a sensação que toda a gente perdeu a memória. Temos uma democracia madura, mas não tão velha que nos leve a pensar que ela sempre existiu. Meia dúzia de memórias históricas mostram que a jogada da esquerda não é tão natural como nos querem fazer crer o PS, o PCP e o Bloco, nem tão contranatura como nos dizem PSD e CDS. Recordemos.
Em 1974 houve um golpe de Estado militar que o povo transformou em revolução democrática e que deu os primeiros passos nesse sentido em 1975 com a eleição da Constituinte. Verdadeiramente, só em Novembro desse ano, depois de um Verão Quente, é que se consolidou a ideia de que a Democracia tinha vindo para ficar. Foi uma conquista do povo, numa altura em que o Partido Comunista via em todos os outros partidos um inimigo e todos os partidos viam no PCP um perigo totalitário. Hoje já não é assim, ainda bem.
O país foi vivendo, primeiro com governos provisórios em que no Parlamento era tudo ao molho e fé em Deus e depois com governos liderados por um partido em coligação ou com acordos de incidência parlamentar.
Até 1982, o Presidente da República estava obrigado a ouvir o Conselho da Revolução antes de indigitar o primeiro-ministro. Nessa altura a AD (PSD, CDS e PPM) já tinha ganho duas eleições com maioria absoluta e, antes disso, o CDS já tinha estado no governo com o PS. Em 1980, a AD ganhou contra uma Frente Republicana, liderada pelo PS, deixando de fora o PCP e a UDP.
Terminada a AD, tendo já o CDS experimentado a governação, tanto com o PS como com o PSD, Soares virou-se para o vizinho do lado e, depois de ganhar as eleições de 1983, formou o governo do Bloco Central, que durou até 1985 e que caiu por acção de Cavaco Silva.
Tinham-se passado 11 anos da revolução e nem cheiro da frente de centro-esquerda. Foi preciso esperar mais um ano e uma luta duríssima entre toda a esquerda para eleger Soares Presidente. Freitas falhou a eleição à primeira volta por muito pouco e, assustados, comunistas e restante esquerda fecharam os olhos, engoliram um sapo, e votaram juntos.
Depois disto, voltaram a estar juntos, liderados por Jorge Sampaio, com a ajuda de António Costa, para tirar a Direita da Câmara de Lisboa. Aí estava, pela primeira e única vez, formada a grande coligação de Esquerda com o PS, PCP, Verdes, PSR e UDP (estes dois agora no Bloco).
António Costa, alguns mais tarde, haveria de reconquistar a capital e testar alianças quer com os vereadores do PCP, quer do Bloco, quer com independentes de esquerda. Nem sempre correu bem.
Em matéria de legislativas, foram 10 anos de PSD, depois do Bloco Central, mais seis de PS, três de coligação PSD/CDS, seis de PS e quatro de coligação PSD/CDS.
Desta versão muito curta da história política em Democracia, podemos concluir várias coisas:
1 - Só ainda não foi possível possível juntar a esquerda com a direita. A não ser que consideremos de facto o PS como um partido de esquerda e não de centro e aí já tivemos a esquerda e a direita juntas num governo liderado por Mário Soares.
2 - A aliança que mais vezes se repetiu, com coligações pós-eleitorais ou pré-eleitorais, foi de centro-direita entre o PSD e o CDS.
3 - A Frente de centro-esquerda não é uma novidade nem pós-eleitoral, nem pré-eleitoral, mas nunca foi testada no Parlamento. Só em presidenciais e autárquicas.
4 - Quem ganhou as eleições liderou sempre os governos, fossem minoritários sozinhos, maioritários sozinhos ou maioritários em coligação.
Pelo que a minha memória me diz do que foram estes 40 anos de Democracia, a mim parece-me razoável e até salutar que o PS procure fazer de uma aliança de centro esquerda uma alternativa à uma aliança de centro-direita. Mas também me parece imprescindível que anuncie essa intenção antes de ir a votos ou que, pelo menos, ganhe primeiro as eleições. O que não me parece nada razoável é que o maior derrotado da noite eleitoral queira liderar o governo.
Será como tiver de ser. A Democracia permite todas as soluções. A questão não é de legitimidade democrática, é política. Já todos sabem que o povo não é parvo. O que cá se faz, cá se paga.