Corina não podia ter feito isto agora, depois de ter recebido o Nobel da Paz, no meio de uma polémica discreta, mas evidentemente incómoda.
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Recordando esses dias, Corina não teve um desfile Nobel, marcou uma desastrada ausência na entrega do prémio e não fez a tradicional conferência de imprensa, com uma explicação muito pouco convincente, no meio de uma fuga pelo mar das Caraíbas que mete umas empresas americanas de segurança pelo meio.
O percurso já tinha mostrado que este ano o Comité Nobel esteve mal e que o prémio deveria ter sido para outra pessoa que verdadeiramente o merecesse. As ligações de Corina a movimentos de extrema-direita, com a participação numa ação do VOX em Espanha, criaram um evidente mal-estar.
Não foi preciso muito tempo para se perceber a asneira do Comité Nobel. Mendigar a Trump um lugar de poder na Venezuela e, em troca, entregar ao Presidente americano a medalha do Nobel, quando ele acabava de fazer uma ação armada na Venezuela, ameaça com uma guerra contra o Irão e anunciou a ocupação da Gronelândia, se não lhe derem ou venderem a ilha, não será de todo um ato digno, nem merecedor de um qualquer prémio de bom comportamento, perante as normas de boa convivência na humanidade.
Corina, segundo Trump, entregou-lhe a medalha, porque seria ele o merecedor do galardão por ter acabado com oito guerras. Corina disse ainda que Trump agiu na Venezuela em nome da liberdade. Certamente ela não ouviu o que o Presidente americano afirmou quando capturou Maduro, qual liberdade. O controlo do petróleo que foi roubado aos americanos justificam a intervenção. Trump não podia ser mais claro, mas Corina ouviu nisto liberdade.
Já esta semana, Trump, na sua nova guerra pela posse da Gronelândia, lá deixou escapar, e cito: "já não me sinto agora obrigado a pensar na paz", criticando a Noruega por não lhe ter entregado o Prémio Nobel e estar a defender a Gronelândia.
Jane Addams recebeu o Nobel da Paz em 1931. Uma mulher dura, daquelas que acredita em princípios e fez tudo em nome dos direitos sociais das mulheres. Nunca vergou.
Martin Luther King recebeu o prémio em 1964. Teve um sonho e morreu por ele, nunca capitulou.
A Madre Teresa de Calcutá, em 1979, com um exemplo de vida que ninguém esquece tantos anos depois.
O Bispo Desmon Tutu, em 1984, sempre dedicado à defesa da igualdade na África do Sul e no mundo.
Gorbachev em 1990. Teve a coragem e a visão de deixar cair o muro e de evitar a continuação da longa guerra fria. Mesmo odiado na sua terra, pensou no mundo em que vivia.
Mandela e Frederik de Klerk em 1993. Mandela saiu da cadeia, sarou as feridas e apertou a mão ao corajoso líder sul-africano que sabia que seria o fim do regime branco, mas garantia a paz naquela terra.
Ramos Horta, em 1996, a distinguir uma luta intransigente pela liberdade de Timor-Leste, onde os princípios nunca vergaram ao peso de meio mundo que esteve sempre contra.
Kofi Annan em 2001.
Malala, em 2014, menina que se fez mulher, torturada e com o corpo marcado, mas nunca abdicou dos princípios da sua luta, nem se vendeu.
É uma lista nobre, onde Corina será um nome apenas recordado quando se falarem dos lapsos do Comité Nobel, como o caso em que, em 1943, Joseph Goebbels recebeu da mão de um tonto Nobel da Literatura a medalha, num gesto que pretendia reconhecer uma das figuras mais sinistras do nazismo.
O mundo, este estranho mundo, tem, felizmente, muitos outros grandes exemplos a seguir e era escusado mais este teatrinho mau.
