Em 2022, ano em que Luís Montenegro foi eleito líder do PSD, a grande surpresa da sua direção foi uma mulher chamada Inês Ramalho.
Especialista em governança, banca e mercados financeiros, a advogada é uma voz consistente na defesa da igualdade salarial entre mulheres e homens, na reivindicação de mudanças para a conciliação do trabalho com a vida pessoal, entre outros direitos sociais.
Quando a conheci e entrevistei, deparei-me com um perfil feminino de direita, sim, mas sem deixar de ser firme nestas matérias.
Inês queixava-se do facto de as mulheres continuarem, em parte, remetidas aos papéis tradicionais e da ausência de práticas de igualdade no topo das organizações e empresas. O país estava mal no retrato que os relatórios internacionais exibiam em matéria de desigualdade salarial e de conciliação entre trabalho e família, sempre em prejuízo das mulheres. "A vida", acrescentava Inês, "não se muda por decreto". Queria dizer que Portugal até tinha boas leis, "muito focadas" em corrigir desigualdades e disparidades, mas era preciso mais, pois, segundo ela, a situação agravara-se de tal ordem que levaria 70 anos a corrigir.
Inês Ramalho reclamava - e insistiu no tema em artigos nos jornais - medidas de apoio às famílias, creches e licenças de parentalidade não discriminatórias. "Mexer nisto também traz dinheiro e riqueza" ao país, pregava.
Passaram três anos e é sabido que os filhos não são uma correia de transmissão dos pais, era o que mais faltava... Ainda assim, interrogo-me como serão, por estes dias, as conversas em família na casa dos Ramalhos. Desconheço posições públicas de Inês sobre o novo código laboral proposto pelo seu partido, mas adorava saber o que dirá ela em privado à senhora sua mãe, a ministra do Trabalho, que, dentro de dias, enfrentará uma greve geral que une as duas centrais sindicais contra o Governo.
Não se trata de uma conspiração de esquerda, pois até para diversas instituições independentes de correntes partidárias, o documento constitui uma marcha-atrás sem precedentes nos direitos do Trabalho, com consequências - lá está - muito penalizadoras para as mulheres.
Confesso: se Inês Ramalho ainda é a mulher que conheci, li e entrevistei, só haverá uma de duas hipóteses: ou fará também greve no próximo dia 11 contra o pacote laboral da mãe-ministra ou concluirá, em breve, que está a mais na direção do PSD que promoveu outro retrocesso histórico nos direitos sociais. Em qualquer caso, só lhe ficará bem.
