Melhores salários, salários dignos. É uma das ambições que ressalta de uma mensagem de Ano Novo que o primeiro-ministro escreveu na primeira edição deste ano do Jornal de Notícias. E cito a frase completa, porque, é lendo ou ouvindo na íntegra, que se percebe um pouco melhor como pretende Luís Montenegro lá chegar: "Não há que ter medo. Menos impostos, mais simplificação de processos e mais flexibilidade laboral são pressupostos para melhores empregos e melhores salários. São fundamentais para salários dignos!"
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Não há aqui subtilezas e não é preciso saber ler nas entrelinhas para ficar com duas certezas e outras tantas dúvidas: a primeira é que o primeiro-ministro pretende continuar a baixar os impostos sobre os rendimentos do trabalho, mesmo que não tenha especificado exatamente quanto, nem quando; a segunda é que não pretende desistir de alterar a legislação laboral, apesar da contestação social e sindical, ficando apenas por saber se, nas negociações que supostamente decorrem, está ou não disposto a ceder e em quê.
A ambição num primeiro-ministro, desde que temperada pela realidade, é uma coisa boa. Mas é bom lembrar que o ponto de partida não é famoso. Vamos aos números: o salário mínimo passou, agora, para os 920 euros. Bem sei que não se pode ter tudo de uma vez, mas ainda não estamos no patamar de dignidade que ambiciona Luís Montenegro. Acresce que, segundo a Segurança Social, haverá cerca de um milhão e meio de trabalhadores que ganham um salário até (e friso o até) 920 euros. Ou seja, um pouco mais de um terço dos trabalhadores, a que é preciso somar os mais de 150 mil funcionários públicos que, a cada fim do mês, também só levarão para casa 935 euros. É muita gente sem um salário digno.
Não somos caso único na União Europeia e nem sequer estamos no fundo da tabela. Mas, quando se espreitam os números do Eurostat, que faz comparações tendo em conta a paridade de poder de compra, ou seja, a diferença no custo de vida de cada país, estamos atrás de países como a Eslovénia, a Roménia, a Croácia, a Lituânia ou a Grécia. Dos chamados grandes, nem vale a pena falar, que estão lá longe. Se servir de consolo a alguém, países como o Chipre, a Bulgária ou a Estónia estão ainda pior.
Mas há outra estatística do Eurostat que revela bem o lugar em que estamos. Quando se compara a proporção do salário mínimo com o rendimento médio, aí sim, estávamos em primeiro lugar, com 66%. O que isto significa é que somos o país em que o salário mínimo estava mais próximo do salário médio. No fundo, é o que permite dizer, sem receio de ser desmentido, que somos um país de baixos salários.
Volto à ambição de Montenegro e desejo-lhe sorte. Se conseguir fazer de Portugal um país do primeiro escalão dos salários, pelo menos a par de países como a Espanha ou a Polónia (nem vale a pena falar do Luxemburgo, da Alemanha ou dos Países Baixos), já seria um grande feito. Mas fico na expectativa. Porque não percebo o que a mentalidade à Cristiano Ronaldo tem a ver com isso, nem vislumbro quais as medidas do pacote laboral que vão ajudar a concretizar esse milagre.
