Poucos dias após a tempestade que devastou o Centro do país, vários concelhos começaram a anunciar o cancelamento de eventos, nomeadamente os tradicionais festejos de Carnaval. Houve quem olhasse mais longe, retirando do calendário feiras e mostras com peso local, mas sem espaço a partir do momento em que as prioridades se alteraram. Como afirmou o presidente da câmara de Ansião, ao anunciar uma revisão orçamental que irá permitir a compra de geradores e de routers de internet por satélite, se nada mudar depois da catástrofe, então os decisores políticos "não estão cá a fazer nada".
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É também essa perceção de excecionalidade que tem mantido funcionários das autarquias permanentemente no terreno. Em dia de tolerância de ponto, alguns municípios anunciaram que hoje estariam abertos serviços para ajudar as populações no preenchimento das candidaturas a apoios. Essa primeira linha de resposta é essencial para a reconstrução. E os eleitores saberão avaliar as diferenças e perceber que autarcas estão efetivamente a aprender com a catástrofe, a reavaliar as suas escolhas e a investir no que é prioritário para fortalecer as estruturas locais e para ajudar empresas debilitadas a prosseguirem a sua atividade.
Mesmo fazendo escolhas, sabemos que a maioria dos municípios das áreas afetadas tem orçamentos magros, maioritariamente consumidos por despesas com salários e encargos fixos. Têm pouca margem de manobra e será difícil fazerem face a todas as solicitações. Aliás, nos municípios mais afetados, o levantamento de danos não está sequer concluído e serão necessárias respostas progressivas, à medida que houver uma noção mais exata dos prejuízos.
É preciso fazer escolhas, como avisa o ministro das Finanças, mas fazer escolhas, ainda assim, pode não ser suficiente. Se queremos tornar o país mais resiliente, será preciso investir a sério em infraestruturas, repensar os apoios a empresas, olhar para a segurança como um investimento de longo prazo. A emergência e a reconstrução não se compadecem com o discurso das contas certas que ontem ouvimos da parte de Miranda Sarmento. Por muito que, politicamente, se entenda a pressão para que um ministro das Finanças se mostre inflexível perante Bruxelas, por baixo dessa superfície tem de haver um Governo disposto a repensar metas. Oxalá seja Castro Almeida, ao admitir o cenário de défice, a traduzir as verdadeiras intenções de um Executivo cujo futuro depende da resposta que vai dar ao país.
