Este mundo está muito estranho e perigoso. Então é possível ter uma intervenção militar num país soberano, substituindo o poder, mesmo que seja de um ditador, por um outro não democrático, desde que garanta o acesso ao petróleo e aos grandes negócios ao país que faz a intervenção.
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É possível também que a maior ameaça ao território de um país da NATO, a Gronelândia, parta de um outro país da NATO, sem que a organização se indigne minimamente e não tenha uma resposta tão pronta quanto aquela que estava e está a desenhar contra a Rússia, que, verdade seja dita, não entrou num só centímetro das terras da Aliança.
É possível redesenhar a ordem mundial, afirmando que nesta zona do globo mando eu. Tu obedeces porque vai ser melhor assim.
A última reunião do Conselho de Segurança da ONU chegou ao surreal de termos a Rússia e a China a defenderem princípios do direito internacional e serem as vozes mais fortes na condenação do que está agora a fazer o Presidente dos Estados Unidos. Por momentos, nem parecia que a Rússia está numa guerra de território na Ucrânia e que a China não se prepara para tomar Taiwan.
A Europa olha para isto ziguezagueante. Primeiro tenta aplaudir a mudança de poder na Venezuela, porque se derruba um ditador, mas depois percebeu que eram só negócios e que o movimento de Corina Machado, Nobel da Paz e alegadamente vencedor das eleições, não seria a solução de poder. Mas ficou apenas por aí. A Europa perdeu a voz, a influência e a capacidade de dizer às tiranias que não pode ser assim.
Trump tem um desafio complicado na Venezuela, que pode mergulhar numa guerra civil e desestabilizar toda a região. Mas se tiver sucesso em Caracas, vai mesmo querer a Gronelândia, a Colômbia, sei lá... os Açores e por aí adiante. Quem realmente pode travar estas ideias que julgávamos perdidas nos tempos de Tordesilhas ou do mapa cor de rosa?
Hoje, Rússia, Estados Unidos e China têm todas as condições para redesenharem o mundo a seu belo prazer, ditando até o que entendem por democracia, limitando direitos e soberanias que julgávamos intocáveis.
É um momento em que estamos todos na encruzilhada. O crescimento de populistas e justiceiros de pacotilha é mais preocupante do que nunca. Os votos e a liberdade são utilizados pelas tiranias que irão matar a democracia, como estamos a ver agora em direto.
A Gronelândia será o desafio a seguir. Os Estados Unidos têm a ideia que o território lhes pertence, porque sim. A Europa terá de decidir de que lado está na história desta rábula, onde se aplica, por enquanto, a lei do mais forte.
O que me preocupa realmente são as consequências disto tudo e o estado em que ficará o mundo se as três grandes potências começarem a anexar territórios e a mudar poderes a seu belo prazer.
Uma coisa é certa: se isso acontecer, acabou a nossa liberdade e a democracia, tal como a conhecemos hoje.
O irónico disto é que Trump foi eleito naquela que se considera ainda a maior democracia do mundo. A agir assim, será ele a tornar também os Estados Unidos uma autocracia, que age sem lei em qualquer canto do mundo.
Convém pensar bem em quem votamos antes de complicar ainda mais este cenário negro onde já estamos a viver.
