"Somos um dos países mais centralizados da Europa. Um centralismo obsoleto, retrógrado, comprovadamente pesado e pouco eficiente, uma das causas do nosso fraco desempenho económico." A frase não é minha, é do professor Miguel Cadilhe, e foi escrita há pouco mais de um ano nas páginas do Jornal de Notícias, no arranque de uma série de artigos promovido pela Associação Círculo de Estudos do Centralismo, um organismo da sociedade civil que junta gente de diversas geografias, quadrantes políticos e áreas do saber, e que, não por acaso, tem sede em Miranda do Douro, o concelho de Portugal continental mais distante do litoral.
Ouça aqui a opinião de Rafael Barbosa
Quando escreveu aquelas palavras, o ex-ministro das Finanças estava a ser contundente, mas não propriamente visionário. O problema está diagnosticado há vários anos. É do conhecimento público e, em particular, de quem tem dirigido as políticas públicas. Mas nem por isso parece haver qualquer interesse do poder político instalado em atacar o problema, que põe em causa o desenvolvimento económico do país e a sua coesão territorial.
Achei que valia a pena recordar as palavras de Miguel Cadilhe a propósito de um estudo em que se volta a pôr o dedo numa ferida cada vez mais profunda. Óscar Afonso e Nuno Torres, da Faculdade de Economia do Porto demonstram, de forma expressiva, com evidências e números, que caminhamos para um país em que, além de Lisboa, só sobrará paisagem.
Os autores analisaram a evolução do nível de vida do país no período de 2000 a 2023 e concluíram que, não só não houve convergência, como se reduziu de 85% para 81% da média da União Europeia. A única região que se mantém acima dessa média, sem surpresa, é a de Lisboa. Mas, mesmo na capital, o nível de vida caiu dos 142% para os 127%. Apesar e por causa da concentração crescente de pessoas, recursos, poder político, económico e decisório.
No que resta do país, o panorama é desolador. Na região Norte, por exemplo, o nível de vida estagnou nos 69% da média da União Europeia. E a explicação mais surpreendente para essa estagnação é o facto da Área Metropolitana do Porto, o seu pólo mais dinâmico, estar em pleno processo, não de convergência, mas de divergência: ao longo deste século XXI, o nível de vida da região em redor do Porto caiu dos 83% para os 77% da média da União Europeia.
O tempo desta crónica é demasiado curto para apresentar todos os números e detalhes, pelo que salto de imediato para uma das conclusões do estudo. De forma quase inevitável, aponta-se para a urgência de encontrar "um novo modelo de organização territorial, que promova de forma efetiva os objetivos de maior eficiência do Estado e da coesão, reforçando o crescimento das regiões mais pobres". Numa palavra, que os autores do estudo aliás não utilizam, a Regionalização.
Há um adágio popular que diz que o pior cego é aquele que não quer ver. No caso das nossas elites políticas, económicas e sociais, o embuste é ainda mais grave. Porque todos já viram o beco sem saída para onde dirigem o país e as suas gentes, mas persistem teimosamente na mesma direção. Tal é a sede e ânsia de poder e de controlo no presente, que põem em causa o nosso futuro coletivo. Já nem é cegueira, é verdadeiro suicídio.
