Perceção foi uma das palavras finalistas, no último ano, do já habitual concurso promovido pela Porto Editora. A explicação é atribuível a opções governativas da equipa liderada por Luís Montenegro. Durante meses, a questão das perceções alimentou acesos debates sobre a ligação entre criminalidade e imigração em Portugal. Tivemos, depois, a perceção associada à polémica Spinumviva, que nos empurrou para uma crise política e nos obrigou a eleições legislativas antecipadas. Houve ainda, já no verão, uma admissão de culpa por parte do primeiro-ministro, a gozar uns dias de descanso no Algarve, reconhecendo ter contribuído para criar a "perceção indevida" de falta de acompanhamento do drama dos incêndios por parte do Governo.
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Luís Montenegro sabe o que valem as perceções em política. Tem procurado geri-las e fazê-las reverter a favor da sua governação e da sua agenda. Os factos e os números, cada vez mais ignorados em detrimento de mensagens de consumo rápido que passam bem nas redes e criam juízos rápidos sobre os temas, são muitas vezes desprezados pelos políticos exatamente porque podem estragar uma boa narrativa.
Perante a forma como nalguns momentos, sobretudo ao explorar a agenda populista da imigração e da segurança, soube tão bem surfar a onda das perceções, não há comoção possível face ao queixume de Montenegro de que o Governo está a ser vítima de perceções falsas em saúde. Munido de números, o primeiro-ministro assegura que a "perceção de caos, de crise" na saúde não corresponde à realidade. E volta a apontar a mira à comunicação social e à "onda noticiosa" em sentido contrário àquele que é demonstrado pelos indicadores.
Os problemas da saúde são demasiado profundos e não cabe aqui analisá-los. São, há que reconhecê-lo, fruto de anos de efeitos acumulados e de difícil resolução. Mas não só existem motivos fundados para a desconfiança instalada entre os portugueses sobre o SNS, como, além disso, as perceções contam. Aliás, não podem interessar e ser manipuladas politicamente quando convém e criticadas quando o seu efeito é negativo. Idealmente, deveríamos discutir mais dados e menos perceções. O debate público deveria ser mais consistente e menos plástico. Mais fundamentado e menos assente na espuma dos dias. Se as perceções têm ganho tanto espaço, é antes de mais nada por responsabilidade própria dos titulares de cargos públicos. Provam do seu próprio veneno quando o feitiço se vira contra o feiticeiro.
