Primeiro o fogo, depois o vento, agora a água. Os elementos da natureza continuam a conspirar contra o centro do país, o centro da costa e o centro profundo, quase sempre esquecido, onde Pedrógão Grande, pelos piores motivos, ganhou nome de tragédia. Pouco aprendemos com os grandes incêndios de 2017. A resposta da Proteção Civil às tempestades em cadeia quase justifica a frase atribuída a Júlio César: "Há, nos confins da Ibéria, um povo que não se governa nem se deixa governar."
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Os últimos dias provam que o imperador tinha razão, em parte. A resposta à população fustigada pelo temporal esteve ingovernável, mas por outro lado tudo o que as pessoas afetadas queriam era serem governadas no sentido de receberem a ajuda e a tranquilidade possível. Mas estamos em Portugal. Alguma coisa aconteceu, pois claro, mas a falta de conhecimento, coerência, respeito e sensibilidade esteve sempre presente nas ações visíveis dos governantes. Os vídeos de propaganda a que assistimos, com origem nos gabinetes ministeriais, são inadmissíveis e devem ter consequências. Ninguém no país precisa de saber que Leitão Amaro ou Nuno Melo estão a trabalhar. Era o que faltava não estarem. Se a ideia era essa, teve precisamente o resultado oposto, ficando todos com a sensação de que os ministros estão mais preocupados com a promoção do que com a resolução.
É evidente que o Executivo de Luís Montenegro não é responsável pelas mudanças no clima. Mas se calhar também nesse plano não faltam políticos a entregar garrafões de água às populações que ignoram e ridicularizam a batalha contra as alterações climáticas, a mais importante luta que a Humanidade trava por estes dias.
Ficamos outra vez entregues ao habitual fatalismo de quem espera que a próxima intempérie traga melhores gestores de redes sociais para os gabinetes dos ministérios. Se a natureza não perdoa, a política parece acreditar que um bom filtro de Instagram resolve qualquer cheia. É urgente substituir o marketing da desgraça por um plano que permita uma ação mais eficaz da Proteção Civil. Nos confins da Ibéria de César, governar tem de ser mais do que filmar o desastre do ângulo certo, tem de ser antecipá-lo dentro do possível e, com ciência, investimento estrutural e organização, dar no terreno a melhor resposta. E nem todos o fizeram.
