Quando faltam três semanas e uns trocos para as eleições presidenciais mais renhidas de sempre, parece-me interessante destacar alguns números que vieram a público nos últimos dias. Eu sei, o ouvinte ou leitor estará a pensar que já não há pachorra para eleições, mas, era isto ou ter de ouvir ou ler uma crónica sobre temas recorrentes de Natal, como a necessidade de paz no Mundo, ou as urgências fechadas. Sucede que, nem eu fui escolhido para Papa, nem quero ser desagradável com a ministra que supostamente devia tomar conta da Saúde. De forma que, voltemos aos tais números sobre as presidenciais.
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De acordo com dados oficiais das audiências, os 28 frente a frente nas televisões foram vistos por quase 22 milhões de espectadores. Tendo em conta que, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, por aqui residem 10,7 milhões de pessoas (incluindo os imigrantes do Bangladesh), isso dá, em média, dois debates por cidadão. Sem surpresa, há uma figura comum aos três combates mais vistos.
Em terceiro lugar ficou aquela meia hora de puro ódio e insulto que opôs Catarina Martins a André Ventura, com cerca de um milhão de espectadores. No segundo lugar do pódio ficou a algazarra entre António José Seguro e o líder do Chega, com um milhão e 280 mil a assistir. E, finalmente, em primeiro, com um milhão e 287 mil, a luta de boxe em que Luís Marque Mendes conseguiu encostar Ventura ao canto da extrema-direita.
Vi todos estes debates e mais alguns, e não tenho dúvidas: foi o melhor do ex-líder do PSD e o pior do atual líder do Chega. Num formato em que o que conta é a capacidade de golpear o adversário com algumas frases assassinas, de Ventura só se viram golpes gastos sobre ladrões e corruptos, esquerdalhada e cravos. Já Mendes, surpreendeu o adversário com um gancho em que lhe lembrou que não se estava a candidatar ao lugar de xerife, e com um direto em que lhe recordou que só nos tempos da PIDE é que os políticos tinham o poder de mandar prender alguém.
Só não foi uma vitória por KO porque Ventura é uma espécie de sempre em pé. Quando está em frente a uma câmara de televisão, o entretenimento está garantido. E ele volta sempre, porque quer e porque o convidam. Como demonstram os números, dá audiências. E a verdade é que está, nesta altura, e a julgar pelas sondagens, na luta encarniçada por um lugar na segunda volta.
A acontecer, será um enorme feito político. Mas também um brinde a quem quer que o enfrente na ronda decisiva. Como mostram os dados de uma sondagem da Pitagórica divulgada esta semana, seria goleado contra todos os outros quatro favoritos (Mendes, Seguro, Gouveia e Melo e Cotrim). Dois outros dados confirmam as suas debilidades: 73% de portugueses dizem que "jamais votariam" em Ventura, enquanto 62%, quando se pergunta que fato lhe assentaria melhor, o de presidente ou o de primeiro-ministro, respondem "nenhum".
Com números destes, é possível fazer de um partido o segundo maior no Parlamento. E pode, também, conseguir-se um lugar na segunda volta de umas presidenciais. Mas não se ganham eleições. Para citar Pinheiro de Azevedo, um protagonista da vida política, em tempos igualmente polarizados, "o povo é sereno, é só fumaça".
