Gostamos de diabolizar o digital e é comum dizermos que os ecrãs competem com os livros. E competem não apenas no tempo de lazer que absorvem, mas também na forma como reduzem a atenção. Vários especialistas dizem que estamos a ficar "leitores-borboleta": pairamos sobre um livro, mas facilmente interrompemos, espreitamos o telemóvel e acabamos por perder o fio à meada. Nos nativos digitais, esta dispersão é ainda maior, mas as redes sociais também trazem alterações que permitem o otimismo. Dos influencers aos clubes virtuais, não faltam canais que ajudam na descoberta de novos livros e que facilitam a partilha entre leitores da mesma idade.
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Talvez por isso se vislumbrem sinais de crescimento da leitura entre os mais novos, ainda que a tendência seja tão subtil que acaba por ser interpretada com cautela. Até porque no secundário há um peso inegável de livros obrigatórios e as metas curriculares nem sempre são compatíveis com a leitura por prazer. Despertar a curiosidade, dar mais liberdade e não associar constantemente a leitura a exercícios como o de preencher fichas e recensões seriam passos positivos que nem sempre a escola consegue dar. Como noutras áreas, focamos demasiado a atenção nos resultados, mais do que no trajeto que o aluno faz para lá chegar.
Incentivar a leitura por prazer é precisamente um dos objetivos da segunda edição do cheque-livro, que decorre até 30 de junho. Jovens nascidos em 2007 e 2008 têm direito a um vale no valor de 30 euros, que não pode ser usado em manuais ou livros de apoio. Na primeira edição, contudo, apenas 21% dos jovens elegíveis acederam a este benefício. Nem o facto de a iniciativa ter sido estendida por mais três meses impediu que quatro em cada cinco jovens ficassem sem usufruir da oferta a que tinham direito. Políticas públicas que não chegam aos beneficiários são políticas falhadas.
Seja por falta de informação ou por excesso de burocracia do processo, que exige chave móvel digital ou um leitor do cartão de cidadão, certo é que os resultados devem ser avaliados para que esta segunda edição tenha maior alcance. Sem essa avaliação, corremos o risco de deixar de fora quem mais precisa deste vale e é sabido que a falta de acesso a livros é mais um fator a contribuir para a reprodução das desigualdades sociais. Os livros podem ser travão num mundo acelerado, podem ser prazer, mas podem sobretudo ser elevador e janela aberta para o pensamento. Livros fazem efetivamente revoluções.
