Quando a chuva passar e os efeitos da tempestade que na última semana devastou o Centro do país estiverem mitigados, há de haver um tempo para avaliar responsabilidades e perceber o que falhou. É inevitável essa avaliação, tantas são as evidências de demoras e falhas na articulação política e técnica para que as respostas chegassem mais depressa ao terreno. Uma vez mais, iremos produzir relatórios e recomendações. Podemos até vir a aprender alguma coisa, mas uma conclusão é desde já certa: continuaremos a ser um país assimétrico e que até nas catástrofes vive a diferentes velocidades.
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Ao sétimo dia, milhares de famílias continuam sem luz, algumas delas sem água e com a chuva a entrar-lhes pelo telhado. E se é verdade que Leiria, profundamente devastada, sentiu que a resposta foi lenta, o sentimento de abandono foi ainda maior numa imensidão de concelhos e pequenas localidades que nem dos mapas de ocorrências iniciais constavam. Sem recursos, sem presença nas notícias, sem campanhas de solidariedade, sem voluntários, ficaram entregues às redes de vizinhança e à capacidade limitada de equipas locais sem mãos a medir.
A interioridade existe mesmo e não é um conceito geográfico. Pode estar na praia da Vieira, à beira-mar. Como está nas aldeias de Figueiró dos Vinhos, de Pedrógão Grande, de Oleiros, de Proença-a-Nova. Tudo irradia a partir do urbano, em sucessivos anéis de centralidade. Os últimos são sempre os mesmos. A coesão territorial é um chavão muito repetido, mas é talvez a nossa maior falha coletiva. Uma falha do Estado, dos partidos e da nossa democracia. Todos sabemos que a desigualdade e o ressentimento alimentam o populismo, mas na hora da verdade é nas cidades que estão os decisores, é nas cidades que estão as vozes com capacidade para se fazerem ouvir, é nas cidades que estão os votos, é nas cidades que estão os principais meios de comunicação.
Uma amiga que viu o trabalho de uma vida ser aspirado pelo vento disse-me que, para quem está sem ânimo e sozinho, qualquer presença e qualquer palavra de apoio contam. "As palavras abraçam", escreveu numa mensagem. Para todos os que perderam casas, empresas, animais, segurança, para todos os que continuam sem luz ou sem água, envio um abraço feito de palavras. E envio um abraço adicional para os que se sentem abandonados, à espera que chegue a sua vez de receber ajuda, para os que não entram nas notícias. Os que resistem e estão, mas são eternos invisíveis.
