Parece que certa esquerda tentou tudo.
Não teríamos Catarina Martins nem Jorge Pinto nem António Filipe como candidatos a Belém se personalidades que os respetivos partidos sondaram tivessem aceite o desafio. Sampaio da Nóvoa não esteve para repetir a experiência, Helena Roseta e a ex-ministra Francisca Van Dunem terão recusado.
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O imbróglio da esquerda nas presidenciais é maior do que não ter, à partida, um candidato unificador: é desconhecer o que os seus eleitores - hoje menos domesticáveis - farão numa altura em que até um certo PS se vê como boia de salvação do almirante.
Passou há dias, na RTP, "A Duas Voltas", obrigatória série documental de Ivan Dias e Paulo Pena sobre as presidenciais de 1986, as mais importantes da democracia até aparecerem estas. À beira do atual cenário, o que Freitas do Amaral representava parece-me muito menos assustador. Mas o tempo, já se sabe, é traiçoeiro e ameniza tudo.
Se alguns não percebem ou não querem perceber o que hoje está em causa, Tereixa Constela, correspondente do El País e autora de um notável livro sobre o 25 de Abril, resume: "Os portugueses vão votar em algo mais do que apenas um novo chefe de Estado. Vão decidir se perpetuam o sistema político que emergiu da Revolução dos Cravos, em abril de 1974, ou se abrem as portas a alguém ansioso por desmantelá-lo."
Na mesma edição, o ainda presidente do Chile, Gabriel Boric, fez o seu mea culpa depois de perder o país para a extrema-direita. "A esquerda que só culpa o adversário está condenada a diluir-se", reconheceu.
O dilema da esquerda no domingo não se resolve, como há 40 anos, a duas voltas. Ou se resolve à primeira ou a esquerda salta do carrossel. Por isso, as eleições representam mais do que perder, ganhar ou manter as trincheiras. Como alertou nas páginas da Visão, António Araújo, luminoso historiador, a escolha é "entre o princípio do declínio de Ventura, caso se fique pela primeira volta", ou dar às suas ambições de governar o país "um significativo impulso".
Há outro dilema, mais profundo, que ultrapassa as eleições, e foi identificado há uns anos pelo humorista espanhol Ignatius Farray: é o dilema da esquerda que insiste em falar para as pessoas como gostava que elas fossem, enquanto a direita fala para as pessoas como elas são.
Alguns dirão que é para rir.
Mas o resultado das presidenciais de domingo mostrará quem, à esquerda, decidiu levar a reflexão a sério e fazer algo para memória futura.
