Prometeram tudo a toda a gente: fariam dos pobres ricos e dos ricos mais ricos; aos agricultores prometeram terras; aos trabalhadores, empregos para todos, com salários altos; aos pequenos empresários, mais clientes e lucros; aos grandes empresários, prometeram maior segurança e lucros.
Ouça aqui a opinião de Rafael Barbosa
Isto foi o que prometeram. Mas, e onde traçaram as suas linhas vermelhas? Não toleravam, desde logo, conceitos éticos ou religiosos como o da fraternidade universal, porque isso implica que todas as pessoas - independentemente da cor, raça, credo ou nacionalidade - têm direitos.
Tudo isto faz-lhe lembrar algo ou alguém? Concordo, são afirmações de enorme atualidade. Podiam ter sido escritas na semana passada a propósito de alguns partidos e líderes políticos, estrangeiros ou portugueses, uns já no poder, outros avidamente à procura de o conquistar. Prometendo tudo a toda a gente, exceto às minorias, que, para essas, o que se promete é a exclusão ou a expulsão.
Podiam ter sido escritas na semana passada, mas, na verdade, já têm 80 anos. São afirmações que fazem parte de uma "Ficha Informativa de Orientação" publicada pelos militares dos Estados Unidos da América a 24 de março de 1945, a mês e meio de terminar II Guerra Mundial na Europa. A mesma América que agora gerou e entregou o poder a Donald Trump, ou seja, precisamente ao tipo de projeto e personagens políticos que eram alvo do alerta.
O seu a seu dono, dei por esta preciosidade enquanto me dedicava a fechar umas quantas páginas da última edição do JN História, que, diga-se, está desde hoje nas bancas. Como escreve o jornalista Pedro Simões, é possível, a partir daquelas palavras, fazer a ponte com todas as tendências populistas da atualidade. Os militares norte-americanos de 1945, no entanto, davam-lhe outro nome: fascismo.
Propunham, como alternativa, o aperfeiçoamento da democracia, lembrando que "é mais do que um voto introduzido numa urna em dia de eleições". É um "trabalho de 365 dias por ano, requerendo a participação ativa e o melhor discernimento de cada cidadão nos assuntos da sua comunidade, da sua nação e das relações do seu país com o resto do mundo".
Sucede que, nestes estranhos dias, e de ambos os lados do Atlântico, é a democracia que definha, enquanto os arautos da intolerância ganham de novo protagonismo e força. Razão pela qual se impõe que termine com o princípio, ou seja, com a nota com que arrancava o número 64 das "Conversas do Exército".
"Identificar o fascismo não é tarefa fácil; tampouco é fácil de destruir, uma vez no poder. É crucial para o nosso futuro e para o do mundo que o maior número possível de pessoas compreenda as causas e práticas do fascismo, a fim de combatê-lo. Pontos importantes a destacar: (1) o fascismo tende a ascender ao poder em momentos de crise económica; (2) o fascismo inevitavelmente leva à guerra; (3) pode chegar a qualquer país; (4) a melhor maneira de combatê-lo é fortalecer a nossa democracia."
Fica o aviso de quem aprendeu à custa de muito sangue, suor e lágrimas.
