Quando a informação incomoda: sondagens, tracking polls e o dever de informar
Há campanhas em que as sondagens passam quase despercebidas. E há outras - como esta - em que se tornam o tema em si. Não é novo, mas tem ganho intensidade: as tracking polls, publicadas com maior frequência, são acusadas de "inventar factos", "manipular perceções" ou "condicionar o voto".
O problema é que este debate, muitas vezes, começa do lado errado. Discute-se a existência do instrumento como se ele fosse a causa de fenómenos políticos que, na verdade, antecedem a própria sondagem: fragmentação, indecisão, voto estratégico e volatilidade.
Uma sondagem não é uma profecia.
É um retrato do momento, com incerteza mensurável. E uma tracking poll não é uma "metodologia alternativa" nem um truque estatístico: é o mesmo retrato repetido com maior cadência, precisamente para acompanhar períodos em que a opinião pública se mexe mais depressa - ou, pelo menos, em que as pessoas sentem que ela se mexe mais depressa.
O que acontece, isso sim, é que se tenta transformar números em narrativas diárias. Num cenário fragmentado, com vários candidatos ou forças muito próximas, pequenas diferenças não significam automaticamente mudanças reais. Quando os intervalos se sobrepõem, apresentar "quem vai à frente" como se fosse uma conclusão firme pode ser apenas uma forma apelativa de contar uma história.
É por isso que, nesta campanha, convém sublinhar um ponto simples: a tracking poll de que tanto se fala não é um "capricho" de um instituto, nem um produto que aparece por geração espontânea.
A Pitagórica é o instituto de pesquisa, mas a decisão - e o investimento - de disponibilizar ao público uma série com elevada cadência pertence aos meios que a publicam. TVI/CNN Portugal, Jornal de Notícias e TSF podiam ter optado por não assumir esse custo e esse risco editorial, como acontece quando se prefere esperar por estudos pontuais ou depender de fontes externas. Preferiram apostar em dotar a opinião pública de informação regular. Isso implica uma responsabilidade acrescida na explicação dos dados e na prudência interpretativa, mas traduz, no essencial, aquilo que um órgão de comunicação social faz: informar.
Por isso, se na primeira semana de campanha praticamente só houve uma fonte a publicar sondagens e alguns concluem que isso "condicionou" a opinião pública, o diagnóstico não pode transformar-se num ataque a quem investiu em informar. A pergunta correta é outra: porque é que outras fontes estiveram ausentes?
E, se a preocupação é genuinamente democrática - pluralidade e equilíbrio - então faz mais sentido discutir que condições, apoios ou incentivos poderiam existir para aumentar a diversidade de medições públicas, do que penalizar o único investimento que, naquele período, garantiu dados disponíveis para todos.
As Legislativas de 2022 são ainda um exemplo particularmente elucidativo de como um tracking deve - e não deve - ser lido. Ao longo de quinze publicações, houve um único dia em que o PSD de Rui Rio surgiu na frente. Esse dia tem sido repetidamente isolado como prova de um alegado "falhanço" do barómetro. Mas um tracking não é um instante congelado: é uma sequência. E esse momento não surgiu por acaso - foi o culminar de uma tendência de aproximação que vinha sendo registada e que fazia parte do quadro real de disputa naquele ponto da campanha. O que raramente é lembrado é que, nos dias seguintes, a própria série voltou a deslocar-se e passou novamente a refletir um cenário compatível com uma vitória mais confortável do PS.
Na avaliação final, a Pitagórica apresentou o menor desvio médio face ao resultado eleitoral e foi o instituto cuja estimativa ficou mais próxima do resultado real do PS, que acabaria por alcançar a maioria absoluta. Na projeção de mandatos, o limite superior apontava para 115 deputados, tendo o resultado final sido 117.
E há ainda um ponto final que convém dizer sem complexos: tracking polls não são uma invenção portuguesa, nem um exclusivo de um instituto ou de um grupo de meios. E, para quem ainda duvida da normalidade desta prática quando é pública, basta olhar para fora: no Canadá, por exemplo, a Nanos publica um "Federal Nightly Tracking" associado a parceiros mediáticos como a CTV News e o Globe and Mail. Nos Estados Unidos, a expressão "Daily Presidential Tracking Poll" é usada de forma explícita e continuada pela Rasmussen Reports entre outros e em Israel o Channel 14 também conduziu trackings. E, aqui ao lado, na Catalunha, a TV3 apresentou uma "tracking-poll", realizado ao longo da última campanha eleitoral.
E estes são apenas exemplos de tracking polls divulgados publicamente por órgãos de comunicação social. Se alargarmos o olhar aos estudos desenvolvidos por partidos políticos e candidaturas, a realidade é ainda mais clara: são poucos os países onde essa lógica não existe. A utilização de instrumentos de acompanhamento contínuo da opinião pública é prática corrente em campanhas competitivas, mesmo quando esses dados não chegam ao espaço mediático.
Em Portugal, aliás, essa lógica não é nova. Há quase duas décadas que partidos e candidatos recorrem a estudos de acompanhamento regular - muitas vezes diários - para aferir tendências, testar mensagens e ajustar estratégias. A novidade, quando existe, não está na ferramenta, mas na decisão editorial de a tornar pública, sujeita ao escrutínio de todos, em vez de reservada a círculos fechados.
Falta menos de uma semana para as eleições e restam apenas mais algumas publicações desta série - cinco, dependendo do dia em que este texto for lido. Talvez valha a pena recolocar a energia onde ela deve estar: nos candidatos, nas propostas e no debate político.
Os instrumentos de medição ajudam-nos a compreender o momento, mas não substituem o voto nem determinam resultados. No fim, o termómetro mede a febre; não é a causa dela.
