Um vídeo com escassos 2 minutos e 43 segundos abriu uma guerra entre o ministro da Agricultura e Mar e dirigentes do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Enviado como mensagem numa reunião em que José Manuel Fernandes não pôde estar presente, o vídeo suscitou reações críticas por parte de membros daquele Instituto, prontamente rebatidas pelo governante no Facebook.
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Pouco importa se há razões objetivas de morosidade ou inflexibilidade do ICNF na apreciação de processos e na emissão de pareceres, porque o ministro da Agricultura comete dois erros graves que não podem ser justificados por argumentos dessa natureza. O primeiro prende-se com a linguagem e tom usados por José Manuel Fernandes na publicação feita nas redes sociais, em que diz haver dirigentes "mentirosos, cobardes e realmente radicais". Ora, um governante não pode ter estados de alma nem desabafos deste estilo, estando obrigado a manter a urbanidade e a zelar em sede própria pelas relações institucionais.
Segundo erro, ainda mais grave, é que as declarações de José Manuel Fernandes permitem ler nas entrelinhas uma tentativa de pressão sobre os técnicos, associada à mensagem de que o desenvolvimento do país justifica a relativização de impactos ambientais. O ministro bem pode queixar-se de ter sido mal interpretado, mas ainda bem que disponibiliza o vídeo na íntegra, porque assim ficamos todos esclarecidos. Não se limita a pedir proximidade e proatividade. Afirma, com toda a clareza, que a legislação deve ser alterada quando entendemos que determinados projetos o justificam e invoca a coesão territorial e a competitividade como objetivos a alinhar com a sustentabilidade ambiental. Quando "não há bom senso", afirma, "temos retrocesso" e "damos espaço ao radicalismo".
Se há indicadores objetivos de excesso ou falta de bom senso por parte de organismos como o ICNF, o Governo que os mostre e submeta a discussão. O que não pode é lançar uma desconfiança generalizada sobre organismos guiados por critérios técnicos ou apelar, nas redes sociais, a que dirigentes se demitam. Recados enviados com meias palavras ou desabafos azedos com palavras tortas podem facilmente acabar a fazer ricochete.
