De eleição para eleição, continuam a aumentar os formatos que prometem dar-nos a conhecer o lado pessoal dos candidatos. Espreitamos fotografias da infância ou de momentos descontraídos em intimidade familiar, ficamos a conhecer-lhes os pratos preferidos, quem convidariam para jantar, até como se desenrascam no xadrez ou a dar uns toques na bola. Dos formatos de humor aos programas da manhã, não faltam oportunidades para vermos futuros autarcas, chefes de Governo ou Presidentes da República mostrar o seu lado divertido e empático.
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Essa multiplicação, que segue uma tendência há muito verificada em países como os Estados Unidos, acaba por ser natural num ambiente de crescente desinteresse pela política. Participar nestes formatos permite aos políticos falar para públicos alargados, ao mesmo tempo que conseguem transmitir ao eleitorado uma imagem mais fresca e simpática do que quando se debruçam sobre conteúdos programáticos e propostas complexas.
Nada haveria a dizer, se não fosse a correlação entre o crescimento da informalidade e a tendência para a simplificação das mensagens transmitidas. Hoje há cada vez mais candidatos que preferem expor-se em programas de humor do que aceitar entrevistas de fundo a jornais, e vai-se notando uma menor profundidade e complexidade nos argumentos trocados durante as campanhas.
Serão diversos os fatores, incluindo as responsabilidades próprias de uma comunicação social que aposta tantas vezes no sound bite, mais do que na densidade e contextualização. Mas é inegável uma degradação das narrativas políticas, que se nota na forma como os casos e a espuma das campanhas se sobrepõem ao plano das ideias. Dizem-nos os estudos pós-eleitorais que o voto é decidido cada vez mais no momento final da ida às urnas, por fatores muitas vezes mais emocionais do que ponderados. À falta de candidatos carismáticos e que nos convençam pelo que poderão construir, talvez tenhamos eleitores a decidir em função do sentido de humor ou da capacidade performativa. Tudo conta, incluindo a personalidade de um político? Sem dúvida. Mas o programa deveria continuar a contar mais do que o pijama que veste no Natal com os filhos. Pode parecer divertido rirmo-nos com eles, mas corremos o risco de abrir caminho a quem desconhece a importância da seriedade.
