Reescrever a história é sempre perigoso. Este ano, celebra-se o 25 de Novembro, 50 anos depois de um golpe que ainda hoje não está completamente explicado.
A geração de Abril nunca lhe deu um dia com a imagem e a dignidade de ontem e lá haverá razões para isso.
Até hoje, a direta acusa a esquerda de ter tentado um golpe que tornaria Portugal numa nova ditadura. A esquerda desenha este dia como um golpe da direita que queria voltar ao 24 de abril. A verdade só é conhecida por alguns dos protagonistas, mas o povo nunca saiu à rua para festejar Novembro e sempre desconfiou da verdadeira razão daquele dia.
Entre os militares, o 25 de Novembro é muitas vezes visto com um acerto de contas, mas é mais do que isso.
A verdade é que Cunhal terá travado a ideia radical de pegar em armas para derrubar a frágil democracia, numa alegada reação a uma tentativa de golpe da extrema-direita. O PCP ficou quieto na hora decisiva e isso evitou uma guerra que teria consequências brutais.
Emergiram figuras como Eanes, o ponderado militar, e Mário Soares, que teve uma afirmação de verdadeiro poder popular na gigantesca manifestação da Fonte Luminosa. O PS serviu o chá da moderação e o país mudou.
O PCP não foi ilegalizado, como exigia o CDS, e até continuou no Governo que seguiu a transição e marcou o fim do PREC.
O Documento dos Nove apaziguou a efervescente classe política. Pararam as nacionalizações, a classe operária voltou ao trabalho e o idealismo da revolução foi forçado a transformar-se em pragmatismo, com dor, obviamente, mas a democracia conquistada no 25 de Abril seguiu em frente sem saudade dos 48 anos de ditadura.
O 25 de Novembro tem sido isso. Uma data importante, mas sem qualquer comparação com o Dia da Liberdade. É um dia no processo, onde cada minuto contou. A democracia que vivemos agora deve-se a tudo isso, mas não a podemos continuar a pôr em risco.
Olhar para a história, a verdadeira, é fundamental para não a voltarmos a repetir nos capítulos negros e nos inspirarmos nos momentos mais deslumbrantes.
Sophia de Mello Breyner descreveu Abril com poesia e sinais de esperança. Mário Soares voltou a essa chama na manifestação da Fonte Luminosa e depois no Porto. O país voltou a acreditar e respirou fundo. A liberdade estava para ficar, mesmo depois do 25 de novembro de 1975. Afinal, não se voltava ao 24 de abril. Cinquenta anos depois, há ainda quem tenha saudades desse tempo e o queira de volta. É sempre bom pensarmos nisto. Na cerimónia no Parlamento, voltámos a ter sinais de que os cravos, símbolo da revolução de Abril, ainda são incómodos.
