Podem ainda não ter percebido, mas eu ajudo: o que está em curso com a eleição de António José Seguro para Belém é a restauração da República.
Quando falo em restauração quero dizer que a sua eleição sem "ses" nem "mas" representa uma tentativa de resgate da ética de valores e práticas em mau estado de conservação e a precisar de conserto urgente.
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O país tem zonas de podridão e o Presidente da República eleito sabe que, nesse aspeto, é necessário refazer quase tudo. A política deve ser praticada em campo aberto, iluminado, transparente e precisa cada vez mais de protagonistas que ousem enfrentar velhas práticas, onde se misturam negócios, lóbis, favores, dependências, jogadas e intrigas, além de meias tintas, meias verdades e o espírito "uma mão lava a outra".
Os interesses e os negócios têm uma manha e uma arte fantásticas, conseguem furar por todos os sítios, dizia-me o próprio Seguro em 2014, numa entrevista. Agora chega a Belém e já prometeu deixá-los à porta. É verdade que Seguro não enjeita o passado do PS e sabemos que uma parte dele ainda hoje nos assombra. Mas a boa notícia é que ele não o traz de volta. Seguro já provou - dentro do seu próprio partido - que não convive com a hipocrisia, o cinismo, a mentira e a golpada.
A dada altura, até se propôs destruir o chamado "partido invisível", do qual toda a gente fala ou tem uma história sinistra para contar, mas ninguém conhece. É um partido sem rosto nem estatutos: não vai a votos, não reúne, mas nem a falta de legitimidade eleitoral o impede de capturar partes do Estado para fins privados enquanto estende as suas redes, escritórios de advogados e aparelhos paralelos à política e aos negócios públicos.
Seguro já nos desafiou a investigar o seu percurso e património. Pelos vistos, dorme bem com isso. Tem ar de seminarista e prefere a gestão do silêncio à gritaria, mas num mundo de exposição mediática saturada e palpitações digitais, folgo em saber que é um político de carne e osso e não de catálogo. De resto, não há milagres: Dom Sebastião morreu há séculos, não chegou, nem vai chegar, apesar de ter descendentes em versão extremista de hipermercado.
O que não se pode ignorar é o cocktail explosivo de raiva, medo, abandono e desencanto que já vale mais de um milhão e 700 mil votos. Resgatar a convivência cívica, restaurar o valor da palavra dada e retirar da invisibilidade a classe trabalhadora, que entregou a sua voz e o seu protesto a uma patologia política, é também uma tarefa para Belém.
Ouvir, ouvir, ouvir é talvez a receita para retirar oxigénio a quem atrai os gritos mudos de uma sociedade. Ora, se é verdade que o poder assenta no saber, como dizia o médico e intelectual António Ribeiro Sanches - não por acaso natural de Penamacor - talvez o novo inquilino de Belém saiba o que fazer com isso.
