Uma urgência que nos pode salvar de um tempo virado do avesso é sabermos distinguir entre os líderes e as suas tribos.
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Tom Nichols, professor e escritor norte-americano, vê na cúpula do Partido Republicano um refúgio para ideias e slogans nazis inspirados na Alemanha de Hiltler. Nichols não é um socialista, nem sequer um parente afastado da social-democracia europeia. É apenas um ex-republicano que vê nos desígnios beligerantes da Casa Branca os desejos mais secretos da mente perturbada de Trump: tornar-se um ditador, supostamente para nosso bem.
O facto de Trump querer tornar-se um ditador não significa, porém, que aqueles que votaram nele o queiram ver como ditador. Esta distinção é importante. Quanto mais depressa percebermos isso, aplicando a receita à nossa realidade geográfica e política, mais perto estaremos de resgatar parte desses universos eleitorais para os padrões mínimos de convivência política, entretanto desaparecidos em combate.
Neste mundo em pantanas - de que a ação militar no Irão representa um novo patamar do grotesco - precisamos, como água no deserto, de quem pense pela própria cabeça e resista à tentação da batalha campal em que foi transformado o debate político. Devemos dar-nos a oportunidade - e também aos outros - de semear dúvidas em relação às mais profundas certezas que carregamos. A escuta do oponente, por muito que os seus argumentos nos revolvam as tripas, nunca terá sido tão importante.
Por muito que tentem, e até o reivindiquem, aparelhos políticos e suas lideranças não são produto de um pensamento único entre apoiantes e a arraia-miúda do eleitorado. Tirando os que chafurdam na babugem do poder e dele dependem para sobreviver, há mais diferenças do que se pensa entre um Messias e os que julgam ter visto a luz ao escolhê-lo. Tal cegueira, como a História demonstra, não é eterna: por vezes, os mesmos que idolatram um líder são os primeiros a derrubá-lo.
São múltiplas as razões que levam eleitores e seguidores a criar hologramas nas suas cabeças. Tudo nasce de objetivos, necessidades, recalcamentos e desencantos variados, por vezes até contrastantes. Mas não é raro que os mesmos que se extremaram se sintam defraudados e corrijam a opção que fizeram. Estigmatizá-los ou entrincheirá-los nas suas frustrações fará do ressentimento um caminho para a vingança.
Em Portugal, a polarização política foi transposta, há muito, para o nível mais rasteiro. Entra-se no debate de pé em riste e qualquer adversário é reduzido a "facho" ou a representante da "esquerdalha". Onde esta indigência argumentativa nos leva já o sabemos desde que Hillary Clinton se referiu ao "saco de deploráveis" que, assanhados, acabaram por dar a vitória a Trump no seu primeiro mandato.
Repetir a receita, lá como cá, é o caminho para a insanidade bélica e para transformar a democracia num ringue. E aí chegados, já todos sabemos quem será o saco de boxe.
