
Esta semana tem sido do ponto de vista da política internacional muito intensa. O tema desta Opinião não poderia ser outro: o conflito entre Moscovo e Kiev.
Como se esperava o momento de avanço russo teve lugar após os Jogos Olímpicos de Inverno em Beijing e arrancou de modo, podemos dizer, imperial. Moscovo decidiu reconhecer as "independências" de dois territórios ucranianos: as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk.
Por entre o turbilhão de notícias sobre esta parte do mundo a que temos assistido nesta semana gostaria de destacar três. A primeira é, sem dúvida, a resposta alemã com a suspensão do gasoduto Nord Stream 2, entre outros, e a sua articulação com os Estados Unidos da América e restantes aliados. Mas, a resposta que eu quero destacar é outra: a convocação de uma manifestação à porta da Embaixada Russa em Berlim. Nesta manifestação marcaram presença as juventudes partidárias dos principais partidos. É um sinal geracional muito, muito interessante.
TSF\audio\2022\02\noticias\24\24_fevereiro_2022_a_opiniao_de_raquel_vaz_pinto
O segundo destaque vai claramente para o discurso de Vladimir Putin. Desde logo, o líder do Kremlin apresentou uma longa lição da História, lição essa selectiva e como seria de esperar um espectáculo de desinformação. Putin falou dos "erros dos bolcheviques" e das "suas fantasias utópicas e destrutivas", ou seja, a "construção territorial da Ucrânia à custa de territórios russos e de outros" e, em especial, de Lenine. Estaline também não sai muito bem desta fotografia de Putin, mas é Lenine o "responsável" por erros como a existência "do direito à secessão sem quaisquer pré-condições na Constituição da URSS". E depois tivemos ainda mais propaganda com uma condenação da "oligarquia ucraniana".
As reacções foram muitas, mas a mais extraordinária de todas foi a do Embaixador do Quénia Martin Kimani no Conselho de Segurança da ONU. Há muito que não ouvia um discurso tão bem fundamentado, tão bem escrito e sintético. São cerca de 3 minutos que valem cada segundo.
Para o embaixador Kimani o que a Rússia está a fazer na e à Ucrânia é, nas suas palavras, muito simples: "Esta situação encontra ecos na nossa história. O Quénia e quase todos os países africanos nasceram com o fim de impérios. As nossas fronteiras não foram desenhadas por nós." O discurso é uma crítica dura à "alteração de fronteiras que visam a homogeneidade étnica" e revelam uma "nostalgia perigosa". Mais ainda, a crítica é geral sobre a "tendência nas últimas décadas de países poderosos, incluindo alguns membros deste Conselho de Segurança, de violarem o Direito Internacional sem qualquer respeito, sem qualquer consideração." E para que não restem dúvidas sobre a posição do seu país afirmou: "O respeito do Quénia pela integridade territorial da Ucrânia e as suas fronteiras reconhecidas internacionalmente."
Ontem, no Estádio da Luz um ucraniano, Roman Yaremchuk, ao marcar o golo do empate do Benfica celebrou mostrando uma t-shirt de apoio ao seu país, ao mesmo tempo, que ia passando a publicidade da Gazprom, a grande empresa de gás natural russa, e que é um dos principais patrocinadores da Liga dos Campeões. É claro que Yaremchuk foi sancionado com o cartão amarelo da praxe.
Hoje, a Ucrânia luta pela sua sobrevivência e desenganem-se aqueles que julgam que não nos diz respeito. Voltando às palavras do Embaixador Kimani, esta é uma "nostalgia perigosa", esta nostalgia russa e esta invasão que começou em 2014 e que agora continua é a luta pela liberdade da Ucrânia. Dos ucranianos e de todos os restantes europeus.