O Diretor Nacional da Polícia Judiciária lançou o aviso: a radicalização de jovens está a mudar-se para o sofá da nossa sala, via wi-fi. Enquanto os adultos discutem se a disciplina de Cidadania é uma conspiração sobre orientação sexual ou uma ameaça à integridade moral da nação, o algoritmo, esse educador sem problema de horários, vai fazendo o seu trabalho.
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O problema maior, sabemos bem, é a falta de tempo. Mas, se calhar, estamos a trabalhar horas a mais para garantir aos filhos a coqueluche dos smartphones - essa ferramenta que os isola de nós. Pais e professores lutam contra o tempo, enquanto um adolescente, fechado no quarto, pode estar a ser educado por um influenciador qualquer, daqueles que confundem liberdade de expressão com o direito a odiar o vizinho. E também nós, adultos, somos apanhados na mesma rede. Nas redes sociais, pois claro, plataformas que têm tanto de informação como o fast food tem de nutrição, e agora transformadas em ventoinhas para espalhar notícia falsas. É o triunfo da pós-verdade: se está no TikTok , é para acreditar. E, entretanto, nos meios tradicionais de informação, também se corre contra o tempo. Pela relevância e pela sobrevivência.
Para contornar esta parede, não basta desligar o router às dez da noite. É preciso insistir na relevância do contraditório. Estimular o consumo de informação verificada. Se não ensinarmos os jovens a distinguir uma notícia de um post patrocinado, não vale a pena atirar as culpas para a falta de tempo.
Talvez a cidadania comece no desligar do ecrã, mesmo que isso custe algumas horas de produtividade. Afinal, é melhor perder tempo a discutir ao jantar do que perder um filho para um vídeo de dez segundos que promete soluções fáceis para um mundo complexo. Se não formos nós a ocupar o tempo dos jovens, o algoritmo ocupará - e ele não tem respeito nenhum pela democracia.
