Costumava dizer-se que só havia duas certezas nesta vida: os impostos e a morte. Mas isso foi antes de surgir no horizonte o grande líder político que nos salvará das trevas, dos imigrantes, dos ciganos e agora das elites. Depois de um verão de fogo e de um inverno de tempestades, penso que já é possível fazer uma atualização ao axioma. Só há três certezas nesta vida: os impostos, a morte e a presença patriótica de André Ventura onde quer que haja uma catástrofe.
Ouça aqui a opinião de Rafael Barbosa
Façamos um esforço de memória, recuando ao final de agosto do ano passado. Os incêndios multiplicavam-se e as populações, ora combatiam o fogo, ora se viam obrigadas a deixar as suas casas. Mas, de repente, do meio do fumo espesso, emergiu André Ventura, de camisa azul, mangas arregaçadas, caminhando pelo cenário desolador, até avistar uma pequena chama que acabava de consumir o que restava de uma árvore já calcinada. Indómito, o líder agarrou um ramo e atacou o fogacho. Não teve efeito prático, mas foi um sinal de valentia política. Devidamente registada em vídeo e publicada nas redes sociais. "Um líder tem de estar ao lado do seu povo. A terra está a arder", disse-nos este D. Sebastião do século XXI.
Passaram cinco meses e é de novo André Ventura quem faz a diferença. É verdade que António José Seguro até foi o primeiro a ir a Leiria, uma das cidades destruídas pelos ventos ciclónicos da depressão Kristin. Seguro foi ainda na noite da tragédia e sozinho. Sem comitiva, sem jornalistas, sem umas câmaras que registassem o momento em vídeo. Sem publicações nas redes sociais. Foi ver, "sem atrapalhar", coisa que não lembra a ninguém.
Já o nosso populista de trazer por casa, sabe que não se pode deixar passar uma oportunidade destas. E ainda menos em campanha eleitoral. Se há desgraça, miséria e até morte, ao menos que disso se tire algum proveito. E André Ventura lá foi, com ar combalido, dar a sua passeata a Leiria, bem agasalhado desta vez, que o tempo exigia sobretudo.
Levou os amigos e os jornalistas. Garantiu umas imagens nos telejornais e material de gabarito para passar no Tik-Tok. Como no tempo do fogo, também tinha a frase preparada: o povo não quer "políticos escondidos nos palácios ou nos gabinetes". O que o povo quer, pelos vistos, é fazer umas selfies com Ventura no meio dos destroços.
António José Seguro e André Ventura são de facto como água e vinho. Um é moderado e sensato, e portanto sóbrio. O outro é um radical que nos quer embriagar com a sua demagogia de pacotilha.
