Confesso que fiquei particularmente chocado com este novo assassinato de um americano às mãos do tenebroso ICE.
OUÇA AQUI A OPINIÃO DE JOÃO FERNANDO RAMOS
Este é mais um grito nos mil e um alertas para os efeitos das políticas e dos políticos que insistem em nos pôr uns contra os outros, elevando o nível de ódio pela diferença e levando a intransigência ao ponto de se matar um jovem que apenas se manifestava, fazendo tudo para evitar a prisão dos imigrantes que estavam a ser perseguidos na rua, apenas porque acreditaram que ainda é possível o sonho americano e procuraram vida na terra das oportunidades.
É bom lembrar isso. A América sempre foi isso: terra aberta a todos os que queriam sonhar e construir, feita por imigrantes que foram para ali para fazerem.
Hoje, tudo se transforma e estes movimentos nas ruas, mesmo com um inverno como não se via há muito, descambam rapidamente para confrontos de uma violência inusitada. Que dias são estes, meu Deus.
Até a Casa Branca e o mentor desta ideia de mandar tudo para a sua terra, Donald Trump, perceberam que as coisas ultrapassaram todos os limites e o ICE foi travado nas suas operações em Minneapolis.
Não quero ficar apenas neste caso. O que me preocupa é o fenómeno que começa a ser global. Até cá, país que se diz de brandos costumes, foi desmantelada uma organização criminosa que planeava ações violentas contra imigrantes e ciganos. Mas eles queriam ir bem mais longe. No plano estava o ataque contra jornalistas, que, veja-se, dão notícias que não são agradáveis ao grupo e à ideologia que defendem, normalmente com mentiras e realidades alternativas.
Eu sei, sei muito bem, que nós, jornalistas, somos incómodos nesta altura em que estes grupos propagam apenas aldrabices, enganando os que os vão seguindo e acreditando nessas patranhas, que os malvados lá vão desmontando, mostrando a realidade e alertando para o que os vendedores da banha da cobra dizem ser mesinhas milagrosas que curam mesmo todos os males. Nada disso.
Essa ideia de estamos contra e vamos até matar quem não segue a seita está a transformar perigosamente a nossa sociedade. Essa ideia simplista não resolve nada, só piora as coisas.
É tempo de agir e ir à escola, de estar com as famílias e lançar um sério movimento social que trava esta intempérie de estupidez que está a dar resultados terríveis na América. E também por cá, felizmente numa escala muito menos grave, por enquanto.
Na semana passada estive na escola Rodrigues de Freitas, no Porto, onde se lançou uma alargada parceria com mais de 70 instituições da cidade, exatamente para se ajudar a comunidade a seguir outro caminho. Na escola, há mais de 40 nacionalidades entre os alunos e o exemplo de convivência leva estas instituições a dizerem presente e a apostarem em fazer crescer uma boa ideia de integração e tolerância.
O discurso do ódio, a culpa de tudo ser dos diferentes e dos imigrantes é um discurso que não cola de todo com a realidade.
Aquela imagem da Torre da Babel, onde em cada língua todos se entendiam, trocando saberes e descobrindo soluções, volta a ser válida. Basta cada um de nós fazer a sua parte para voltarmos a ter uma terra com esperança e muito menos ódio.
