Bem-vindos (ou talvez não) aos novos Anos 20

Há um século a Humanidade ainda recuperava de um conflito mundial traumatizante. Também por isto - ou talvez por isto - foi meio caminho andado para que os conceitos vigentes fossem atirados para o caixote das más recordações. Mudou tudo e, pelos vistos, mudaram quase todos nos "loucos" anos 20. É verdade que acabaram numa Grande Depressão, mas terá valido a pena enquanto durou.

O futebol, como todo o resto da sociedade, não fugiu à alucinante mutação operada. A FIFA, que jogou uma cartada forte nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, sentiu que era chegado o momento de apontar à criação do primeiro Campeonato do Mundo. Foi já em 1930 mas o facto é que, com muito mais avanços do que recuos, o futebol é, cem anos depois, hegemónico em grande parte do planeta.

Claro que os "Roaring Twenties" trouxeram contribuições bem mais importantes do que este salto imparável do futebol, ao introduzirem o voto para as mulheres, a Art Déco, o acesso da classe média às tecnologias, a afirmação definitiva do cinema, a rádio como meio de comunicação de massas, o jazz como novo farol na música, o salto qualitativo da produção automóvel e por aí fora. A lista é longa e, como se viu, o futebol também lá está.

Abreviando. Vêm aí os novos anos 20. Os de um século XXI provavelmente ainda mais imprevisível do que o anterior. E, uma vez mais como em tudo o resto, o futebol não escapa. As grandes discussões já não se prendem com a forma sobre como chegar às pessoas, mas sim como potenciar o mercado quase infinito que esta indústria gerou. A ver vamos até onde irá a intenção de fazer ainda mais dinheiro em cima do muito que já faz.

E Portugal no meio disto tudo? Nada de especial irá acontecer no que respeita ao quadro de domínio de três grandes clubes, pela simples razão de que Benfica, FC Porto e Sporting são, do ponto de vista da base social de apoio, imbatíveis. São os únicos que podem reclamar milhões de adeptos, ao contrário de todos os restantes. É assim desde sempre, pelo óbvio motivo de que os países não mudam só porque sim.

Precisamente pela realidade sociológica em que vivemos, a responsabilidade dos três grandes é ainda maior. Aliás, será cada vez maior. E chegará o dia em que as circunstâncias vão obrigá-los a rever a estratégia que tem passado pela defesa exclusiva dos seus interesses individuais que, pelos vistos, são tão do agrado dos atores envolvidos, adeptos incluídos.

Talvez um dia percebam que têm de ser eles, em convergência com o ​​​​​​​poder político (ou poderes políticos, se quiserem), a assumir um papel ativo na erradicação das "forças" que querem transformar os estádios de futebol em palcos de violência estúpida.

Nesta jornada do campeonato, logo na primeira do ano, regressaram as tochas e as cadeiras pelo ar, chegando-se ao ponto de interromper um jogo por quatro vezes, como se isto fosse admissível. Noutro estádio, embora sem este tipo de consequências, as tochas também por lá passaram. E nem é preciso recuperar o inventário completo de cenas semelhantes, em vários recintos, com vários protagonistas, ao longo do tempo.

Não vale a pena fazer a pergunta do costume pela enésima vez (sim, é essa, como é que este material continua a entrar nos estádios?), nem adianta insistir no porquê da inércia de quem tem instrumentos legais para agir em conformidade. A única coisa que legitimamente nos resta é continuar a exigir que aquela gente não entre nos estádios portugueses.

Embora com a certeza de que tal só será possível com a combinação de dois fatores: se as autoridades forem realmente ativas - até há uma Autoridade para Prevenção e o Combate à Violência no Desporto, certo? - e se os clubes aceitarem colaborar na exclusão de quem usa o futebol para fins que vão acabar por destruí-lo. É um combate imprescindível, mas até hoje não se vislumbra nem uma coisa nem outra.

Estes novos anos 20 trazem-nos desafios muito diferentes dos do século passado. Só se espera é que ninguém tenha a péssima ideia de ir ao caixote das más recordações buscar o que para lá se atirou há cem anos.

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