Costa e o kit mãos-livres?

A geringonça foi a votos e saiu vencedora. Claro está que os portugueses escolheram entre PS, BE e PCP, mas, na solidão da cabine de voto, estavam a pensar na continuação de uma solução que combinou o improvável: estabilidade política, recuperação económica e contas certas. Por isso mesmo, António Costa, no discurso de vitória, enfatizou o óbvio - vai abrir o diálogo com os partidos que viabilizaram o Governo e alargar o diálogo ao PAN e ao Livre.

À primeira vista, a direita em cacos, o reforço eleitoral do PS, a abertura para o diálogo demonstrada por BE e PCP e até a existência de novos interlocutores concedem maior margem de manobra a António Costa e as negociações para a reinvenção da geringonça podem ser possíveis. Mas talvez seja só mesmo na aparência.

É um facto que o PCP, enquanto se colocou de fora de um acordo formal de governo, foi moderado nas exigências que fez (deixou mesmo cair as matérias laborais, mostrando abertura para viabilizar orçamentos, desde que tenha claros ganhos de causa) e que o BE até sugeriu um compromisso mais estável. Mas o PCP, ao colocar-se de fora de acordos formais, confirma a interpretação de que para conter o definhamento eleitoral tem de voltar ao seu lugar histórico de partido de protesto, e o BE sabe bem que aquilo que coloca como linhas vermelhas não é aceitável pelo PS.

Por isso mesmo, António Costa tem hoje as mãos mais livres para governar do que há quatro anos. Com mais deputados do que o bloco à sua direita e com possibilidade de ir negociando à vez com BE ou PCP (e podendo contar, por vezes, com a abstenção do PSD), as condições para ir navegando à vista são evidentes. Mas Costa e Catarina Martins (e, em menor medida, Jerónimo) estão mais limitados na sua ação do que parece. O seu eleitorado deseja uma reedição da geringonça, mas, dadas as profundas divergências programáticas e sem estarem obrigados a entenderem-se, os líderes vão procurar pretextos para que esta intenção fracasse (foi esse, aliás, o subtexto das intervenções da noite eleitoral). O risco de instabilidade é grande e, convém não esquecer, a desmobilização social, alavancada pelo arrefecimento da economia, pode estar ao virar da esquina eleitoral.

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