De #NeverTrump para Forever Trump

"A excessiva atenção que se presta ao perigo faz com que muitas vezes se caia nele", La Fontaine

"O Presidente dos Estados Unidos tem que ser um melhor ser humano do que Donald Trump é", Pete Souza, fotógrafo oficial dos dois mandatos presidenciais de Barack Obama

"Eu achava que a política era a segunda profissão mais antiga do mundo. Começo a perceber que tem muitas parecenças com a primeira", Ronald Reagan ao "Observer", em 1979.

Incrível a rapidez com que pressupostos que achávamos seguros se desvanecem. Há pouco mais de três anos, a reação de vários setores da sociedade americana ao triunfo inesperado do atual Presidente dos EUA gerou um movimento #NeverTrump, que parecia manter uma certa barreira de decência e bom senso. O que se passou nas últimas semanas no Senado dos EUA foi mais uma prova de que, afinal, essa suposta "garantia" não durou muito tempo.

O comportamento dos senadores republicanos faz-nos perder a fé na capacidade dos melhores princípios prevalecerem. Com a honrosa exceção de Mitt Romney, todos os outros representantes do GOP na câmara alta do Congresso não se privaram de colocar como prioridade a absolvição de um Presidente que colocou os interesses pessoais egoístas acima do interesse nacional.

A contradição é tão evidente que nem sequer foi notada: o Partido Republicano -- agora transformado em nacionalista, identitário e "tribalista" --, permitiu que o Presidente prejudicasse os interesses "nacionais" em detrimento de um cálculo pessoal. Que estranha forma de ser-se "nacionalista".

Permanece o mistério sobre as insondáveis motivações que levaram as senadoras Lisa Murkowski (Alasca) e Susan Collins (Maine) - e até os senadores Rob Portman (Ohio) e Lamar Alexander (Tennessee) - a recuar à última hora, depois de tantas manifestações públicas de considerarem que o Presidente teve comportamento condenável em relação à Ucrânia.

O "impeachment" colocou à tona o pior da era Trump: as maiorias republicanas na Casa Branca e no Senado preferem o "encobrimento" aos procedimentos (como é possível travar o depoimento de Bolton depois do que foi antecipado do livro?); os congressistas republicanos vergaram-se ao estilo autoritário de um Presidente que desdenha o sistema de pesos e contrapesos. Quem diria?

É certo que Steve Bannon já nos tinha avisado do que iria acontecer, na entrevista (muito elucidativa) que deu ao "Expresso" no final de dezembro: nunca os senadores republicanos votariam pela destituição, não que não achassem que Trump não a merecesse (em almoço informal ocorrido há tempos, entre 45 dos 53 senadores republicanos, fez-se votação secreta e 35 deles, sob a proteção do anonimato, escreveram num papelinho que Trump devia ser destituído), mas por medo.

Não, não é só "tática eleitoral". É mesmo medo: medo do que o "exército Trump" faria a quem votasse no Senado pela queda do seu chefe - "inundavam-lhes o gabinete de telefonemas, emails e ameaças". Foi o "mestre" Bannon que disse e ele lá saberá como atua esse exército - muito do que são hoje o estilo e as táticas desse "exército invisível" (cada vez mais dominante e eficaz) saiu da sua cabeça.

Em três anos passámos de #NeverTrump, hashtag que "bombou" nas redes sociais com pujança que parecia durável (mas, afinal, o que é "durável" nesta era da desagregação?), para Forever Trump. Não, não é piada: foi mesmo assim que Donald reagiu, triunfante, à sua absolvição no Senado.

Há uns anos, seria de rir e encolher os ombros. Em fevereiro de 2020, deve ser levado a sério: o atual Presidente dos EUA tem mesmo a um devaneio de se eternizar no poder. E há quem goste da ideia.

Devaneios de eternização

Há cada vez mais sinais de que Donald Trump acredita mesmo que pode eternizar-se no poder.

Visto de fora, esse desejo é apenas ridículo: uma das bases do sistema político americana é a limitação de poderes -- limitação no tempo (dois mandatos de quatro anos) e no alcance (o Presidente é o topo de um triângulo que tem outras duas pontas fundamentais, o Congresso, poder político legislativo, e o Supremo, guardião máximo da Constituição e do poder judicial).

Mas uma análise mais atenta e vigilante do que tem acontecido nestes perturbadores anos Trump faz-nos perceber que essa ideia não será assim tão disparatada.

Trump apressou-se, dias depois da eleição de 2016, a espalhar a mentira de que Hillary beneficiou de quatro milhões de votos fraudulentos na Califórnia - para desmontar a questão de ter sido eleito com menos votos que a adversária.

Milhões de apoiantes seus acreditam na tese de que o "sistema" tentou evitar a eleição de Trump em 2016 e se prepara para evitar a reeleição em 2020.

Caso Trump perca por pouco para quem venha a ser o nomeado democrata, que ninguém espere uma transição pacífica - Donald é irresponsável o suficiente para recusar os resultados eleitorais e montar uma "resistência popular" ao suposto "ataque do establishment pela via eleitoral".

Até há poucos anos pensávamos que isso era uma realidade que já só ocorria em alguns países africanos. Mas a degradação das instituições democráticas é tão grave e acelerada na era Trump que os EUA podem já ter recuado bem mais do que pensamos nesse aspeto.

O mais preocupante no "impeachment" não foi a absolvição do Presidente - isso era mais do que esperado e ocorreu em linha com o que tinha acontecido com Johnson no século XIX e com Clinton nos anos 90.

O que é mesmo perturbador é que a base da defesa não foi a suposta inocência do Presidente - no fundo, toda a gente sabe que Trump pressionou mesmo Zelensky e congelou os fundos para a Ucrânia (qual é a dúvida?).

A tese da defesa foi mais ou menos isto: se o Presidente fez é porque é legal; se o Presidente caísse, os democratas ganhavam balanço para as eleições de novembro.

O grande problema é que vários milhões de americanos acharam isto normal e vivem bem com a ideia de terem um Presidente que se coloca acima da Lei por interesses pessoais - e até ponderam renovar-lhe o mandato presidencial em novembro.

O que pensariam disto os Pais Fundadores da América de fevereiro 2020?

Um tempo que passou

Mitt Romney quis entrar para a História (e entrou mesmo, nunca um senador havia votado pela destituição do Presidente do seu próprio partido) e ficou com o lugar que até ao verão de 2018 era de John McCain - o de guardião do que resta da melhor consciência republicana.

Ficaria em condições de ser candidato presidencial republicano em 2024 se a direita clássica americana resistisse ao "trumpismo" - não creio que resista.

Para quem assiste com atenção à política americana, é muito relevante reparar neste simbolismo: os quatro últimos nomeados presidenciais republicanos antes de Trump (Bush pai, Bush filho, McCain e Romney) foram os únicos a confrontar verdadeiramente o Presidente nos momentos em que não havia como não sentir indignação.

Mas Bush pai e McCain já morreram. George W. Bush tem mantido um exemplar afastamento da vida política e até pública -- recentemente correu um vídeo de 2011 em que, em ambiente universitário, avisara, com incrível precisão, o que estaria para vir de deriva populista e nativista no Partido Republicano, sem na altura imaginar que Trump fosse o artífice desse desvio.

Resta Mitt Romney, o único senador republicano que tem percurso e eleitorado próprios para poder ter feito o que fez a Trump sem que isso lhe custe a "morte política" imediata.

David Smith chamou-lhe, horas depois da votação no Capitólio, a emergência da era do "hiperpartidarismo" na América. Adeus bipartidarismo capaz de gerar consensos saudáveis.

Obama já o tinha sentido na pele, nos oito anos de quase permanente impasse na sua Presidência. Estes três primeiros anos de presidência Trump aceleraram essa degradação, numa espécie de "guerra civil sem armas", mas cada vez mais ódio e divisões insanáveis.

Narrativa para a reeleição

E enquanto os democratas se afundam na indefinição (será Biden capaz de "ressuscitar" após os falhanços no Iowa e New Hampshire? Terá Bloomberg tempo para ainda entrar a sério na corrida? Vai Sanders convencer Warren a desistir e liderar frente de esquerda? Será Buttigieg um nome para levar a sério em 2020 ou só uma preparação para 2024?), Trump acelera para a campanha de reeleição.

O Estado da União traçou o tom: discurso triunfalista na Economia, diminuição do registo hostil para com as minorias, com piscar de olho a segmentos que perdeu para Hillary, mas onde pretende subir pelo trunfo do sucesso económico -- os negros, as mulheres, os jovens.

Mas o essencial não muda. Trump usa descaradamente as "hipérboles verídicas" e já quase ninguém se levanta para desmentir. Não, esta não é "a melhor economia de sempre" dos EUA! Nem sequer são os melhores três anos de um presidente na criação de emprego.

Duvidam? Aqui vão os factos, então: média mensal de criação de empregos nos últimos três anos da Presidência Obama, 227 mil; média mensal de criação de empregos nos primeiros três anos da Presidência Trump, 191 mil; média trimestral do crescimento económico nos últimos três anos da Presidência Clinton, 4,4%; média trimestral do crescimento económico nos primeiros três anos da Presidência Trump, 2,3%.

Há um velho ditado que os americanos em estados do Midwest gostam de repetir: "Até podemos pôr bâton num porco que ele continua a ser, na mesma, um porco".

Mas isto está mesmo a mudar muito depressa - já nem nos Óscares se mandam piadas fortes contra Trump (e, pensando bem, os Óscares andam a perder audiências todos os anos e bateram recordes negativos nesta gala 2020).

Viriato Soromenho Marques notava há dias, no DN: "Numa sociedade que entra em colapso, também desaparece a memória".

Os Alphaville cantavam "Forever young/I want to be forever young/Do you really want to live forever?/Forever and ever".

Mas isso era no tempo em que era normal que os melhores sentimentos fossem dominantes. De "forever young" para "forever Trump" há só mesmo uma parecença fonética.

Tudo o resto faz toda a diferença.

Que tristeza.

*Autor de "Isto Não é Bem um Presidente dos EUA - Diário dos Anos da Perturbação Americana"

(Artigo alterado às 13:30 de 12 de fevereiro)

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