Dos ziguezagues na comunicação à informação falsa

Comunicar é uma missão de particular responsabilidade em tempos de pandemia. É preciso alertar para todos os riscos, sem excesso de pormenores técnicos ou detalhes suscetíveis de causar pânico. Há que esclarecer e dar confiança quando é preciso retomar rotinas, sem deixar que as pessoas baixem a guarda. Sabendo, além do mais, que a mesma mensagem é apreendida de forma diferente pelas pessoas, consoante os seus próprios temperamentos e medos, e portanto nunca há uma dose certa ou exata para o peso que se carrega em cada frase.

Essa dificuldade é agravada cada vez que são cometidos ziguezagues na estratégia de comunicação. Exemplo clássico é a posição das autoridades de Saúde relativamente ao uso generalizado de máscaras. Começou por ser recusada essa orientação, com o argumento de que o uso poderia transmitir uma falsa sensação de segurança, acabando por ser adotada a utilização obrigatória quando começou a haver quantidade suficiente disponível no mercado.

Outro exemplo, pior, é a legislação publicada a 1 de maio que equipara a utilização de viseira à de máscara, nos espaços fechados e transportes públicos. A Ordem dos Médicos e o Conselho de Escolas Médicas já recomendaram a urgente revisão do decreto-lei n.º 20/2020, lembrando que a viseira não desempenha a função de barreira reconhecida à mascara, não podendo por isso a lei equipará-las ou colocá-las em alternativa. Falhas desta natureza não são pormenores: são essenciais para que haja clareza quanto aos comportamentos a adotar e para que haja confiança, por parte da população, no regresso a alguma normalidade.

Os constantes avanços da investigação dificultam essa clareza. Basta olhar para um exemplo como o contacto com os avós, que motiva posições completamente díspares. A Suíça considera haver segurança na indicação de que crianças até aos 10 anos não são transmissoras do vírus, enquanto outros países têm adotado conclusões de investigações diferentes para manter distanciamento nos contactos familiares. É exatamente por vivermos ainda num ambiente de muita incerteza que toda a informação oficial deve ser cuidadosamente avaliada e estudada antes de ser comunicada e convertida em forma de lei.

À inevitável dinâmica resultante da investigação de um vírus muito recente soma-se o preocupante fenómeno das notícias falsas, que alastram e intoxicam as populações. A Comissão Europeia anunciou que tem registado, diariamente, mais de 2700 conteúdos com fake news relacionadas com a Covid-19 nas redes sociais, alertando para a "elevada desinformação" na Europa sobre a pandemia.

Estamos, neste caso, a falar de informações que podem ter um efeito direto na saúde das pessoas, na medida em que influenciam os seus comportamentos e atitudes de autoproteção. Numa altura em que tanto se discute a necessidade e importância de encontrar mecanismos transparentes para contribuir para a viabilidade financeira das empresas de comunicação social, é mais pertinente do que nunca inserir nesta equação programas eficazes de literacia mediática.

A informação rigorosa e credível é um bem inestimável, mas a comunicação tornou-se tão permanente na nossa vida que a certa altura deixamos de a valorizar. E, no entanto, sem esse rigor e um papel ativo dos média multiplicam-se os riscos - seja para a saúde, seja para a vitalidade e capacidade dos sistemas democráticos.

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