É possível ter melhores gestores públicos?

Um extraordinário médico não é necessariamente um bom ministro da Saúde. Uma talentosa diplomata não será inevitavelmente uma boa Ministra dos Negócios Estrangeiros. As competências exigidas na gestão de políticas públicas excedem o território do conhecimento setorial. Um bom gestor público tem que versar também sobre temas jurídicos, dominar estatística e finanças, ter talento para lidar com pessoas, capacidade de planear e assegurar os resultados de projetos estratégicos.

Mas as mãos que empurram as pessoas para a atividade política mostram pouco critério. Continuamos a encontrar, com excesso de facilidade, gestores e políticos com fraco engenho para o serviço público. É verdade que a racionalidade profissional não pode ser o único critério de entrada na política. Não sejamos virginais. Alinhamento ideológico, de interesses, de pessoas não são necessariamente impróprias ao ofício público e, muitas vezes, são elementos importantes na criação de consensos e na aceleração de processos.

Mas é fundamental haver mais formação profissional.

A semana passada o RenovaBR formou mais de 1400 alunos com uma cerimónia na sumptuosa Sala São Paulo, no centro da maior cidade da América Latina. O que é o RenovaBR? É uma escola de quadros políticos, apartidária, que tem como objetivo criar uma nova geração de políticos brasileiros, mais éticos e melhor preparados tecnicamente, em contraste com o ecossistema dominado pela corrupção e por cinismo partidário. O Financial Times identificou o movimento, lançado em 2017, como "uma das forças políticas mais poderosas do País." Vários dos seus formados conseguiram eleger-se deputados ou serem selecionados para cargos executivos nas administrações municipal, estadual e federal. Os alunos não pagam mensalidades e brotam de todas as regiões e classes sociais (cerca de 40% são autodeclarados negros ou indígenas). Muitos já são quadros partidários e vários outros gostariam de ser. O curso, com uma componente técnica e executiva, é composto por quase 100 horas de aulas. Quem paga? A sociedade civil. Aproximadamente 500 doadores, a maioria empresários brasileiros cansados da decomposição do atual sistema político, contribuiu em 2018 com R$ 18,5 milhões (EUR 4,1 milhões).

Ainda é cedo para avaliar se o RenovaBR cumpre a sua missão e se os seus alunos conseguem, na verdade, resistir às tentações da velha política e apresentar um desempenho superior a outros gestores públicos e políticos. Mas reside aqui uma nova tendência global. São vários os países que têm adotado iniciativas para aperfeiçoar a qualidade da gestão pública e combater movimentos populistas que, com hábitos necrófagos, bicam as carnes gangrenadas dos sistemas políticos.

Em Portugal falta-nos criatividade na forma como selecionamos e formamos os nossos quadros públicos. As escolas de ciência política dedicam-se mais a ensinar filosofia política do que a formar executivos públicos. São mais Sorbonne e menos Harvard Kennedy School. Faltam-nos organizações brasileiras como o Centro de Liderança Pública ou a Vetor Brasil que formam ou pré-selecionam profissionais para o setor público. Não temos nada semelhante à britânica Apolitical, que gera e dissemina globalmente boas práticas de gestão pública nas mais diversas áreas. A solução mais eficiente para um problema urbano no Porto pode já ter sido criada em Portsmouth ou em Portland. Estamos carentes também de um programa como o Jóvenes al Servicio de Chile, que recruta jovens líderes e aloca-os em serviços públicos nas regiões mais desvalidas do país.

Em ambiente laboratorial, as pessoas deveriam entrar na política quando já não precisam dela e deveriam sair quando começam a precisar. Mas em ambiente real, existe mais apego siamês ao poder do que existem bisturis que separem as vontades individuais dos interesses da nação. Ser destronado, dói. Fisicamente. A maioria dos nossos políticos entraram com barba rala na administração pública e, dominando os códigos da obediência e sendo mandatários das vontades alheias, torna-se políticos profissionais exercendo vários cargos públicos ao longo de décadas - até a barba se tornar novamente rala.

Neste contexto, a requalificação dos nossos administradores públicos e a renovação da classe política é quase inexistente. Sim, existe renovação geracional porque a biologia ainda é mais determinante que a vontade humana, mas os jovens políticos, em muitos casos, são tão velhos quanto aqueles que vão substituir. É por isso que precisamos do envolvimento da sociedade para ajudar a refrescar a administração pública. Haverá, do lado da sociedade civil, quem superestime o risco e se entregue ao niilismo. Haverá, do lado da classe política tradicional, quem reaja com corporativismo ou com altivez. Mas tantas boas práticas nesta área lá fora precisam de começar a desaguar no nosso país.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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