É preciso preparar o regresso ao trabalho – e em segurança

Se o Estado de Emergência é naturalmente decretado num contexto de pressão, de urgência, de forma inesperada, o mesmo não sucede com o seu levantamento ou relaxamento; esse pode ser preparado com tempo, com melhor análise, com mais estudo.

Pode, e deve, porque não podemos sujeitar-nos a acordar um dia com o levantamento do Estado de Emergência sem saber ao certo como e quando e o que fazer, com que meios, com que proteção. Porque tenho como certo que precisamos de estar prontos a agir quando esse Estado de Emergência for levantado.

E se vamos sabendo das medidas do Governo não só lidar com a pandemia como também para preservar a economia e as empresas e as famílias durante estes tempos (e, independentemente do maior ou menor acerto, era uma prioridade e bem estiveram os Governos que a isso se dedicaram), sabemos bem menos dos planos do Governo para a retoma da atividade da economia.

Não se trata de ter uma data, de ter um dia certo, nem sequer de ter um plano fechado, rígido, como se a realidade não estivesse infelizmente em mutação com sinais de imprevisibilidade. Trata-se, isso sim, de estabelecer o plano de saída do Estado de Emergência, um plano que permita o regresso em segurança dos trabalhadores aos seus locais de trabalho, das empresas à sua laboração, gerindo ao mesmo tempo os riscos de ressurgimento do vírus e minimizando o risco de infeção, sobretudo das populações mais vulneráveis.

Vai essa retoma fazer-se por setores, por áreas geográficas, por faixas etárias? Há testes imunológicos que permitam gerir esse regresso? Há equipamentos de proteção acessíveis a todos os que deles vão precisar? Há protocolos que permitam às empresas e aos seus trabalhadores saber como continuar a trabalhar respeitando as várias regras (e quais?) de distanciamento físico e higienização? Há novos protocolos para essa nova fase nas unidades de saúde?

Sabemos muito pouco sobre isto. Não sei se isso se deve a discrição, a trabalho feito nos bastidores para evitar dar uma falsa segurança de que o pior já passou, ou se se deve a algum atraso na definição desse plano.

Mas se o motivo é o primeiro, o de evitar dar falsa segurança, é preciso cotejar essa preocupação com uma outra: empresas e trabalhadores não saberão o que fazer se não tiverem sido informados e enquadrados antes. E isso não me parece um pormenor, porque é tão complexo o regresso, levanta tantas questões, que não acredito que o possamos implementar de um dia para o outro.

Parece-me essencial que esse plano, por mais temporário e sujeito a alterações da realidade que venha a ser, seja rapidamente apresentado aos parceiros sociais e sindicatos, de forma a preparar a economia para o enorme desafio que aí vem. Porque há muito a decidir, há muito a tratar.

Há países que já estão nessa fase, como a China e a Coreia do Sul. É preciso aprender o que fizeram, como fizeram, e o que pode ser melhorado e adaptado, nomeadamente nas regras de distanciamento social, nas políticas de testes e nos protocolos adotados nas atividades económicas.

Deve medir-se a temperatura de cada trabalhador ou de cada cliente; o que fazer em caso de febre, para onde reencaminhar e que protocolo e acompanhamento deve essa pessoa ter? Temos capacidade para fazer testes? Temos ferramentas tecnológicas que nos permitam acompanhar a evolução das pessoas? Temos instalações e equipamentos preparados para esta fase? Há novos canais de comunicação entre autoridades públicas e privadas para lidar com as dúvidas e questões e ansiedades que se vão colocar no novo quotidiano?

Estou perfeitamente consciente de que nada disto é fácil: é bem mais clara a forma de entrar num estado de lockdown do que a forma de sair dele. Mas o nosso futuro depende muito, mesmo muito, deste plano de saída, e é por isso que ele é tão importante.

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