E se Abramovich transformou uma lei justa num "visto gold" à boleia dos crimes do nosso passado?

Daniel Oliveira defende medidas para reparar os crimes históricos e, para isso, não ficaria chocado com "pedidos de perdão, devoluções de património roubado e indemnizações de crimes contra a humanidade" porque considera que nada disso é sobre o passado, mas sim um olhar do presente para esse mesmo passado.

"Um olhar que determina o futuro. Este tipo de medidas não serve para abrir novas feridas, serve para as sarar. Os mesmos que garantem que tudo isso é passado não se inibem de erguer monumentos à nossa grandeza histórica como se ainda fosse nossa. Querem escolher o que fica no passado e o que transportam para o presente, mantendo a nossa história convenientemente arrumada ao seu gosto. Apesar das indignadas reações a quase todas as propostas de reparação histórica, a alteração à lei da nacionalidade que permitiu a naturalização de todos os que provem a sua ascendência sefardita, com ligação a Portugal, foi recebida sem polémica", explica.

No espaço de Opinião da TSF, o cronista sublinha que o antissemitismo é a única forma de racismo e xenofobia que passou a ser inaceitável em quase todos os setores políticos. Concorda que o país esteja disponível para assumir a perseguição e expulsão dos judeus como um crime da história nacional para "repará-lo simbolicamente", mas recorda que Portugal ainda não está disposto a assumir o colonialismo como um crime pelo qual tem de responder.

"Talvez porque ele ainda esteja na memória vivida de muitos e ausente nos mitos que continuamos a alimentar sobre nós próprios ou talvez porque a comunidade judaica que sobreviveu neste país é pequena. A perseguição foi criminosamente eficaz e a comunidade de afrodescendentes numerosa. Custaria muito mais. O antissemitismo está colado às imagens do holocausto. Só imagens dos horrendos crimes do colonialismo nos livrariam do nosso racismo ancestral e estrutural como nos estamos a livrar do ódio ancestral e estrutural ao povo judeu. E essas imagens são constantemente apagadas do espaço público como se fossem uma afronta rescrita da história", justifica Daniel Oliveira.

Gays e ciganos, "que acompanharam a sorte dos judeus nos campos de concentração", também não são esquecidos pelo cronista, que recorda que estas minorias continuam a "ser vítimas do ódio, do preconceito e da perseguição". Além disso, Daniel Oliveira argumenta que celebrou a alteração à lei da nacionalidade que permite a naturalização de descendentes sefarditas porque assumiu o crime de perseguição contra o povo judeu como "parte da nossa história e da nossa identidade".

"Ela integra o legado sefardita no que somos como povo, o que abre as portas a outras reparações históricas igualmente importantes. Mas celebrar uma lei importa garantir que não é usada para outros propósitos. Como se sabe, não é fácil provar a ascendência sefardita, sobretudo quando os judeus foram perseguidos em toda a Europa e tantas vezes obrigados a esconder a sua identidade. Muitos somos descendentes dessa dissimulação forçada e é ainda mais difícil provar uma ligação a Portugal que se perde nos séculos", afirma.

Roman Abramovich, amigo de Vladimir Putin, usou recentemente esta lei para conseguir a nacionalidade portuguesa. Algo que Daniel Oliveira classifica de "tiro certeiro", pois as ligações do magnata aos sefarditas portugueses não são claras.

"Ao contrário da comunidade judaica de Lisboa, que tem feito um trabalho exemplar na credenciação dos pedidos de nacionalidade, a do Porto, que teve intervenção neste processo, parece ser menos exaustiva. E a suspeita de que Abramovich a financiou ajuda a adensar dúvidas que ganharam proporções internacionais quando Alexei Navalny, líder da oposição russa, disse ao mundo que o magnata tinha comprado a nacionalidade portuguesa. Não sei se a suspeita é justa, não tenho como saber. Sei que tem de ser esclarecida", sublinha o cronista.

Perante estas suspeitas, Daniel Oliveira considera que o Estado tem de agir, uma vez que a lei não só sai fragilizada como é uma ofensa à memória do povo judeu em Portugal e "compromete futuros atos" de reparação histórica.

"Confirmando-se, faria de Portugal destino de gente tão pouco recomendável como Abramovich da forma mais perversa de todas: uma espécie de visto gold informal, à boleia dos crimes do nosso passado. Investigar este caso é a forma de defender uma lei que serve para pagar uma dívida histórica e não para dar um passaporte a quem esteja disposto a pagar para reinventar o seu passado", acrescenta Daniel Oliveira.

*texto redigido por Cátia Carmo

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