E se o vírus voltar?

O isolamento social foi a necessária resposta para garantirmos, tanto quanto possível, a capacidade dos nossos sistemas de saúde enfrentarem a pandemia e o pico de afluência hospitalar que esta gera. Uns mais preparados do que outros, uns com mais meios do que outros, o que é certo que a esmagadora maioria dos países optou por essa estratégia assim que confrontados com a chegada do vírus aos seus países. Poderíamos todos ter agido mais cedo, não há dúvida. Mas está por provar que essa prevenção pudesse livrar-nos da estratégia do isolamento social, que politicamente se tornou aliás inevitável à medida que sucessivamente adoptada pelos restantes países.

Mas a esse isolamento corresponde uma paragem da nossa economia, que é mais do que uma mera suspensão. E quanto mais tempo esse isolamento durar, quanto mais tempo precisarmos desse isolamento para travar o vírus, mais se afunda a economia.

Há quem veja nisto uma espécie de fracasso do capitalismo, ao ver empresários aflitos sem saber o que fazer para continuar a produzir, para continuar a ter actividade, para continuar a pagar salários. É preciso atrevimento para uma coisa dessas. Quando a economia fecha, por razões de pandemia e por decisão política, estamos perante um evento tão excepcional quanto externo ao funcionamento do mercado. Nenhum modelo económico presume ou prevê o fecho, durante semanas ou meses, da actividade económica. Seria por isso útil não desperdiçar tempo nessas batalhas ideológicas, sob pena de acharmos que as fronteiras fechadas, que são também elas isolamento, correspondem então à vitória de um modelo nacionalista de novas fronteiras onde antes podíamos circular livremente...

E se o foco das autoridades públicas de saúde deve estar, e bem, no combate à pandemia, já o foco das autoridades públicas de economia deve estar também noutro lugar, e não apenas no curto prazo: se vencermos a pandemia mas não o vírus, se o vírus por cá continuar para regressar no Outono, vamos voltar a isolar-nos todos, fechando a economia, arrastando para o desemprego e miséria uma boa parte da população (as ajudas sociais assistem, mas não resolvem o problema da economia), ou vamos, com este tempo que temos pela frente, estar mais preparados para enfrentar o desafio?

Essa é a reflexão que já está a fazer-se: enquanto não chegar uma cura e uma vacina, como podemos gerir a economia e o combate ao vírus de forma simultânea? Como podemos impedir que milhões de pessoas se vejam subitamente sem emprego, sem capacidade de pagar as suas contas, e com Estado Sociais que, por mais robustos que sejam, dependem sempre de forte actividade económica para manter-se?

O que fazer se no Outono este vírus regressar? O que fazer até termos uma cura ou uma vacina?

Dois exemplos interessantes de reflexão são estes: um do Nobel da economia Paul Romer em co-autoria com Alan Garber e um outro de Thomas Friedman , ambos dando corpo à estratégia de isolamento social vertical, selectivo, por alternativa ao isolamento universal que presume o fecho da economia. No fundo, a ideia de que devemos ter um isolamento parcial que impeça a economia de parar e que ao mesmo tempo proteja os mais vulneráveis.

No entanto, essa estratégia presume, como esses e outros autores realçam, uma preparação intensa e imediata: é preciso ter um política massiva de testes (e investir seriamente em investigação nessa matéria, para termos testes mais rápidos e mais fiáveis) e um investimento robusto em equipamentos de protecção, para que as pessoas possam proteger-se de forma eficaz do vírus. Sem isso, a estratégia não funciona. Ao mesmo tempo, é necessário ter outras instalações de suporte, preparadas para uma estratégia destas.

É um investimento grande? É com certeza. Mas será seguramente menor ao que teremos de fazer se a economia se despenhar e tivermos de a resgatar, sabe-se lá como e com que condições?

Ora, essa reflexão tem de fazer-se também por cá, e depressa. E não se trata de minimizar a vida humana a troco da economia: trata-se de ter noção de que nenhum Estado Social resiste sem economia, de que milhões de pessoas podem ver as suas vidas desgraçadas por terem ficado sem emprego e sem forma de cumprir os seus encargos e responsabilidades.

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