Foi nisto que os portugueses votaram?

A noite eleitoral concluiu-se com um reforço significativo mas não esmagador do PS, uma vitória do conjunto dos partidos que fizeram a maioria que governou nos últimos quatro anos e uma dispersão significativa de votos por pequenos partidos.

Seria natural que essa noite abrisse um período intenso de negociações antes do desenho da solução governativa seguinte. Mas tudo parece ter-se precipitado... Uma ronda negocial foi suficiente para o PS decidir não procurar acordos a quatro anos e definir a melhoria de rendimentos dos trabalhadores como prioridade essencial da próxima legislatura. E para o fazer acreditando que isso se fará por acordo que dispense o reequilíbrio de poderes entre patrões e trabalhadores que alguns ajustamentos na legislação laboral pedem há muito.

A ausência de um acordo duradouro, que aparentemente quase nenhum parceiro pretendia, é uma má notícia. E não falo de papéis assinados. Para o efeito bastaria a palavra dada.

Está a ver-se que o PS aposta tudo em António Costa, no seu sentido tático, talvez na existência de canais de comunicação com o PCP que fazem dele o único homem capaz de manter a esquerda unida mesmo quando todas as condições objetivas o tornam impossível.

Mas o PS está a ignorar que vai chegar a hora em que não pode mais adiar mudanças profundas que fizeram de Portugal um país excessivamente desigual, vulnerável à pobreza, com uma enorme fratura geracional e serviços públicos em acentuada degradação. Mais, o PS parece preparar-se para governar como se as previsões não fossem de que uma recessão económica mundial sincronizada chegará a meio do seu mandato. Se o Diabo não vem quando Passos o chama, aparece quando menos o esperam.

Evidentemente que, num momento em que ainda não há sequer programa de governo e prosseguem negociações interpartidárias, muita coisa pode ainda acontecer, mas tudo aponta para que o PS fará o seu terceiro consecutivo erro de leitura de como gerir um segundo mandato no governo.

Em 1999, António Guterres lançou-se num governo que dependeu de alianças pontuais e caiu às mãos de uma ridícula polémica sobre taxas de alcoolemia, de risíveis acordos sobre fontanários em Ponte de Lima e de uma estrondosa derrota autárquica em Lisboa e Porto.

Em 2009, José Sócrates meteu-se de peito feito a gerir o país no meio da mais profunda crise internacional em um século sem apoio parlamentar maioritário, negociando caso a caso, para cair na tenaz do PEC IV.

Em 2019, António Costa volta a lançar-se à aventura de governar sozinho após um simulacro de negociação à esquerda. É certo que agora há um parlamento fragmentado que torna mais difícil ter todos contra si. É seguro que tem um talento negocial raro, para não dizer único, na história da democracia portuguesa. É visível que vai procurar usar o facto de lhe bastar entender-se com o PCP em questões laborais e com o PSD em questões europeias para poder governar. Mas, mesmo voando, as vacas têm um corpo pesado e grande inércia. E quando chegar a crise ainda não haverá espaço orçamental para espetaculares políticas contracíclicas.

Ao prescindir de acordos-quadro para a legislatura, fossem eles de papel passado ou de palavra dada, António Costa empurra-se a si próprio, ao PS e, mais preocupantemente, ao país, para um encontro desagradável com as nuvens negras da economia mundial. E não foi nesse encontro desagradável, conduzido por um governo que pesca à linha apoios parlamentares e mendiga reformas necessárias, que os portugueses que votaram à esquerda do PSD depositaram o seu voto.

Se o governo que aí vem for o que por estes dias parece vir a ser, os portugueses que ganharam as eleições podem tê-las perdido e o PS não demorará muito a sentir o peso do seu maior erro estratégico desde a indecisão de António José Seguro face ao apelo de Cavaco Silva para dar a mão a Passos Coelho.

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