A falácia bonifácia

Esta semana, um artigo abertamente racista foi publicado no Público.

Como há quem insista em que o artigo não é racista, mas "apenas uma opinião", é preciso explicar o óbvio: o racismo é isso mesmo, uma opinião. A opinião de que há raças humanas; que isso, a "raça", define os indivíduos; que há raças superiores e inferiores. E essa opinião costuma ter consequências. Foi ela que, por exemplo, em Portugal determinou a legalização da escravatura dos negros até ao século XIX e do trabalho forçado dos negros até 1962; a perseguição aos ciganos ao longo da história da Europa; os holocaustos judeu e cigano perpetrados pelos nazis; e muitas outras atrocidades do passado, presente e, pelo que se vai vendo, do futuro.

Isto assente, vamos ao ponto seguinte: porque é que o tal artigo é racista?

Para começar, divide as pessoas que vivem em Portugal em três categorias: "lusitanos, africanos e ciganos." Partindo do princípio de que não se refere à mítica tribo de Viriato, concluímos que a categoria "lusitanos" se define por oposição a "africanos" e "ciganos", os quais também apelida de "minorias exóticas", que, frisa, "nunca se dissolverão na comunidade autóctone".

Estes "lusitanos" ou "comunidade autóctone" são o "nós" que, diz o artigo, "nada tem a ver" com "o mundo deles".

Temos pois um "mundo do nós", que nesta altura já todos percebemos que para a autora é dos brancos (seja lá isso o que for). E uma divisão das pessoas - supondo que a autora considera as três categorias pessoas - com base na ideia de "raça"; sendo que as "raças" correspondem a "mundos que nada têm a ver uns com os outros".

O racismo do texto não é pois só - e já seria suficientemente racista - definir grupos de pessoas com base na categorização racial. É um racismo que faz a apologia da segregação ao afirmar que nesse mundo do "nós", dos "brancos", os ciganos "são inassimiláveis". Ou seja, nunca poderão fazer parte da comunidade do "nós". O mesmo vale para "os africanos" e para "as tribos muçulmanas", nas quais, garante - é uma das repelentes falsidades de que o texto está repleto --, "a excisão genital feminina é imperativa".

Se tais grupos de pessoas não são "assimiláveis", a autora só pode estar a defender que vivam à parte - isto, claro, na melhor das hipóteses. Até porque, diz, ciganos e africanos não são assimiláveis porque nem uns nem outros "descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Revolução Francesa", nem "partilham, de um modo geral, os mesmos valores morais".

Ou seja: se não têm os valores dos direitos humanos e os "valores morais" da comunidade, são selvagens, não é isso? E selvagens, frise-se, sem sequer hipótese de serem "elevados" à civilização.

Não, não é fácil encontrar uma tão clara e descomplexada expressão de racismo fora de manifestos de terroristas supremacistas, de grupelhos nazis e das caixas de comentários. Encontrámo-la no Público, porém. Que o jornal tenha publicado tal coisa já é mau que chegue; mas vemos ainda quem protesta a ser acusado de "perseguição" e de querer "proibir opiniões contrárias". Como se dizer que a um texto assim não podia ser dado visto de publicável fosse o mesmo que calar a autora. Ou decretar que, por não comungar dos nossos valores, não tem lugar na comunidade.

Como se chamar-lhe racista fosse impedi-la de o ser.

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