A história contada pelos invisíveis

Daniel Oliveira defende que o conceito de lusotropicalismo é um mito e que os portugueses não podem negar o seu passado colonialista opressor. A propósito do último episódio da série de reportagens "Visíveis" da jornalista da SIC Sofia Pinto Coelho sobre o racismo, o jornalista sublinha que "o bom colonialismo português é um mito".

"No último episódio, uma frase de uma professora negra causou indignação nas redes sociais, cito Beatriz Dias, presidente de uma associação de afrodescendentes: 'O facto de Portugal ter tido um projeto colonial, ter ocupado territórios africanos e ter subjugado civilizações contribuiu para criar uma ideia de supremacia europeia e branca; e essa ideia prevalece.'",começou por explicar o cronista.

Daniel Oliveira conta que as reações não tardaram: "No Twitter, o comendador, economista e ex-dirigente do PSD António Nogueira Leite falou de discurso de ódio, dizendo que não somos merecedores da vinda de Beatriz Dias: uma versão melhorada do 'vai para a tua terra'. Repetindo velhos mitos luso tropicalistas, alguns garantiram que o português foi o menos mau de todos os colonos e outros escreveram que não devemos julgar o passado com os valores do presente."

Numa viagem pela História, Daniel Oliveira lembra que o colonialismo português "não foi menos criminoso do que o colonialismo inglês, francês ou espanhol": "Só foi criminoso até mais tarde. Os massacres do Wiriyamu, em Moçambique, da Baixa do Cassange, em Angola, de Batepá, em São Tomé e de Pidjiguiti, na Guiné, aconteceram entre 1953 e 1971."

Mas os exemplos não terminam por aqui: "Os trabalhos forçados não remunerados, sempre que era precisa mão-de-obra barata para fins públicos ou privados, só foi abolida em 1962 e continuaram, na prática, até à descolonização. E estes nem sequer foram os melhores anos do nosso 'bondoso' colonialismo."

Daniel Oliveira sublinha que, de facto, "não podemos julgar o passado com os valores do presente, mas podemos não o negar", da mesma forma que "se é verdade que não temos de pedir desculpa por uma História que herdámos também não temos de nos orgulhar dela".

"Se não temos de assumir os crimes que não cometemos, também não faz sentido continuar a repetir na primeira pessoa do plural que damos novos mundos ao mundo e abrimos as portas da globalização. Se o passado não é nosso no sangue, não pode ser nosso na glória. Quem não quer construir memoriais não tem direito a erguer estátuas", afirma.

O cronista lembra que a História pertence aos vencedores e que "só quando os invisíveis fizerem parte dos vencedores é que descolonizaremos o nosso olhar sobre o passado".

"Não precisamos da culpa do perdão. Só precisamos de querer ver. O incómodo causado por estas reportagens mostra como ainda estamos no princípio", rematou.

Texto: Sara Beatriz Monteiro

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