As greves de enfermeiros matam?

"A Opinião" de Pedro Pita Barros, na Manhã TSF.

A greve dos enfermeiros que está a afetar cinco centros hospitalares e a adiar cirurgias é, ao mesmo tempo, resultado de um problema de curto de prazo e de um problema de longo prazo para o Serviço Nacional de Saúde.

Mesmo com serviços mínimos definidos, é quase inevitável que não seja apenas a saúde dos casos adiados a ser afetada, também os casos de cirurgia realizados durante este período serão provavelmente influenciados pela greve.

Uma análise das greves na zona de Nova Iorque, ocorridas entre 1984 e 2004, mostrou efeitos importantes na mortalidade dos doentes admitidos durante esses períodos de greve, e também um maior número de readmissões dos doentes que foram tratados durante as greves. Ou seja, na análise cuidada que foi feita sobre esse período, concluiu-se que as greves de enfermeiros levam a maior mortalidade nos doentes tratados.

Não sei se tal sucederá ou não em Portugal durante estas greves, e é difícil identificar onde tal suceda de forma direta, mas claramente é algo que precisa de estar presente nas discussões que deverão estar em curso entre Governo e representantes dos enfermeiros. E deverá ser, depois, avaliado de forma séria como foram afetadas as pessoas, as que foram tratadas e as que viram a sua cirurgia adiada.

O problema de curto prazo a ser resolvido é a questão salarial, sendo que era facilmente antecipável que esta questão se iria colocar desde o momento do fim formal do programa de auxilio a Portugal, há quatro anos. Houve um arrastar da situação, que deveria ter sido prevenida. Neste momento, este é provavelmente o problema mais complicado a resolver pelo Governo (e não apenas pelo Ministério da Saúde).

O problema de longo prazo é estabelecer o número adequado de enfermeiros e quais as suas funções no Serviço Nacional de Saúde. Não tenho uma resposta para estas perguntas, mas deveriam estar a ser pensadas, sabendo-se que tudo o que seja alterar papéis de profissionais de saúde gera uma forte contestação corporativa. Mas, a prazo, será inevitável essa reflexão global, não apenas ligada aos enfermeiros.

A solução para a atual greve terá de passar por reconhecer que elementos são justos nas reclamações dos enfermeiros, e alguns haverá, que aspetos podem ser respondidos imediatamente, e quais os que terão de ter resposta ao longo do tempo - e, para estes últimos, será crucial saber que compromissos credíveis são assumidos por ambos os lados.

Sendo que todos reclamarão que a saúde dos cidadãos está em primeiro lugar, é importante que seja resolvida o mais rápido possível a atual situação, mas contribuindo desde já para começar a resolver as questões que se vão colocar a prazo (relembro, como assegurar o número adequado de enfermeiros e em que âmbito de intervenção), antes que o custo para a saúde das pessoas seja elevado.

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