A Opinião

Checkemos o fact-checking

"A Opinião" de Fernanda Câncio, na Manhã TSF.

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Fact-checking em português significa verificar factos. Ou melhor, verificar se algo corresponde a um facto. Essa é, naturalmente, uma das funções do jornalismo: distinguir o verdadeiro do falso; informar.

É, pois, curioso que estejam a surgir no mundo, e também em Portugal, sites e projectos jornalísticos, ou rubricas em media já existentes, que se apresentam como servindo exclusivamente para fazer 'fact-checking'.

Um dos motivos apresentados para esta proliferação é o combate às chamadas 'fake news', ou seja, o combate a fabricações e boatos disseminados nas redes sociais, geralmente com objectivos políticos.

Mas o tipo de conteúdo que surge nesses veículos que se apresentam como de 'fact-checking' - e podemos constatar isso nas rubricas e no site, com esse alegado propósito que estão a surgir por cá - tem a ver sobretudo com afirmações feitas no espaço público por protagonistas políticos.

Ou seja, embora descrevendo-se como um meio de combate às 'fake news' criadas pelos populistas, esses sites ou rubricas acabam por, na prática, dedicar-se a pretender aferir a "verdade" ou "mentira" no discurso dos políticos - apresentando-se como uma espécie de "desinfestantes" da democracia.

Sendo evidente que há muita verificação para fazer nesse campo, restringir o 'fact-checking' à área do discurso político é uma forma de dizer que só os políticos merecem desconfiança ou que são sobretudo os políticos, e os políticos "do sistema", que mentem - que, afinal, criam 'fake news'. Esta ideia, aliás muito popular, tem sido desde sempre um dos adubos mais eficazes do populismo - os populistas costumam apresentar-se como aqueles que, ao contrário de todos os outros, não mentem ao povo. Os que "só falam verdade". Aliás, de um modo geral as 'fake news', tão caras aos populistas, são pretensamente o "desmascarar" de supostas mentiras, contradições e "podres" de "políticos do sistema".

Estamos pois aqui perante um paradoxo: aquilo que se apresenta como um meio de combate ao populismo assume como ponto de partida um dos princípios do populismo: a política é mentira e falsidade e os políticos - os "do sistema" - estão todos a tentar enganar-nos.

Mas não é esse o único paradoxo deste "novo fact-checking": ao proclamar a sua necessidade e afirmar-se como uma inovação, está a dizer que o jornalismo já existente não faz o seu trabalho, limitando-se a divulgação ou mesmo propaganda. É que, afinal, são as declarações divulgadas pelo jornalismo existente que os auto-proclamados 'fact-checkers' vão analisar, o que pressupõe que quem as divulgou não o fez.

Mas se estes 'fact-checkers' se apresentam como os "correctores" daquilo que é divulgado pelo jornalismo, não os vemos fazer aquilo que daí deveria decorrer: verificar o que o jornalismo afirma. Aliás, o site lançado há uns meses em Portugal como sendo de 'fact-checking' afirmou logo que não iria analisar as notícias de outros jornais (ou rádios, ou TVs).

Ficámos assim a saber que a ideia não é bem o 'fact-checking' pelo 'fact-checking'; não é bem de "desmascarar" notícias falsas, boatos, deturpações, ignorâncias, que se trata; não é bem de zelar por que a verdade triunfe. Há-de ser de outra coisa. E a ser a assim, há que checkar o que checka e como checka o 'fact-checking'. Não vá ser 'fake'.

*a autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990